O desempenho dos titulares de cargos políticos assenta e é analisado em função de duas éticas. A primeira, a ética da convicção, privilegia o elemento ideológico e, como tal, a ação política é justificada pela assunção de uma ideologia ou de uma doutrina. A segunda, a ética da responsabilidade, coloca o enfoque nos resultados sem, no entanto, descer ao maquiavelismo que, em nome dos fins aceita todos meios – the means acuse the end excuses.

No caso do Brasil, a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder deu origem a uma terceira modalidade de ética. Aquela que Guilherme Fiuza, colunista do jornal O Globo e da revista Época, designa como ética companheira e da qual deu abundantes exemplos no livro intitulado «Não é Mamãe».

Uma ética que tudo aceita e desculpa em nome da identidade partidária.

Um novo tipo de ética sem o qual não parece possível uma explicação cabal da recente situação política brasileira.

De facto, foi a ética companheira que levou Lula da Silva a afirmar convictamente que o Mensalão nunca tinha existido. Nada de novo. Como decorre da História, há sempre quem se negue a aceitar a realidade por mais evidentes que sejam as provas, como é o caso de Robert Faurisson que continua a negar a existência das câmaras de gás e dos campos de concentração nazis.

No caso do Mensalão – que não existia para Lula, mas lhe deu tantas dores de cabeça - , quando José Dirceu foi preso, Lula apressou-se a telefonar-lhe para lhe assegurar: «estamos juntos».

Como Dirceu acaba de passar da meritória situação de preso político à vil condição de político preso, ao ser sentenciado a uma pena de 23 (vinte e três) anos, e Lula da Silva enfrenta problemas com a justiça talvez venhamos a estar perante algo mais do que uma manifestação de solidariedade da ética companheira.

Em nome dessa ética muitos outros exemplos poderiam ser trazidos à colação. Porém a lista não caberia neste artigo. Na realidade, onde haveria espaço para os desmandos de Marcos Valério, Rosemary Noronha, António Palocci, Erenice Guerra, Delúbio e tantas outros desbaratadores do erário público brasileiro? Com a agravante de também uma plêiade de atores políticos pertencentes a outros partidos ter lugar na lista. Basta ver o número de senadores, deputados e governadores estaduais com processos em curso: abuso de poder, tráfico de influências, associação criminosa…..

Uma prova provada que o Brasil não é para principiantes.

Voltando à ética companheira, foi ela que justificou uma das últimas decisões presidenciais antes da suspensão preventiva: a saída a terreiro de Dilma em defesa de Lula, nomeando-o Ministro.

Uma nomeação destinada a aumentar o grau de proteção jurídica ao anterior Presidente que, uma vez Ministro, apenas responderia perante o Supremo Tribunal de Justiça, ou seja, perante uma maioria de juízes indicados por si ou pela sua sucessora. Uma tentativa infrutífera, pelo menos por enquanto, face às decisões da Câmara dos Deputados e do Senado no processo que visa o impeachment de Dilma.

Um processo que continuará a correr os seus trâmites legais enquanto a ética companheira, talvez por colocar os correligionários acima de qualquer suspeita – o nome petista para lei – não deixará de denunciar o golpe perpetrado pela burguesia com o apoio da imprensa.

Afinal, como Lula da Silva denunciou no discurso que fez no Senado na sessão comemorativa dos 25 anos da promulgação da Constituição, a imprensa «avacalha a política».

A imprensa que Lula considera burguesa, bem entendido. Aquela que continua a pugnar pela liberdade de se informar para informar.  Meios de comunicação social que convivem mal com os populismos de longa tradição no subcontinente e no país.

Uma imprensa que, para desespero dos delapidadores do erário público, se mantém distante da ética companheira. #Governo