Após anos de clausura, e a pedido de moradores, a Capela de Santa Anastácia volta a ver a luz do dia, quando o sol espreita na Foz de um revitalizado Porto virado para o turismo e os grandes investimentos. Note-se que, pela inscrição latina que se lê na fachada, esta peça foi edificada em 1340 e 1391, estando já bastante descaracterizada.

Mas há, ainda, quem defenda ser desconhecida a data da sua fundação. Segundo o Padre Alexandrino Brochado, em "O Porto e suas Igrejas Azulejadas", a dita inscrição em franco desgaste reza que a capela foi "construída por promessa da população da Foz em agradecimento por não ser atacada pela peste".

Situada na rua Padre Luís Cabral, por detrás da Esplanada do Castelo, no largo onde outrora existiam a prisão, serviços camarários e o arquivo da antiga vila, a Capela de Santa Anastácia chegou a servir de igreja matriz durante o período que mediou entre as obras do Castelo da Foz e a construção da actual matriz barroca.

Para que fique o registo a quem a queira visitar, no bom tempo que se avizinha, a capela é rematada por frontão triangular encimado por cruz de pedra e pirâmides laterais. O corpo da esquerda, que parece ser o primitivo, apresenta porta descentrada e, no enfiamento desta, uma janela encimada por nicho vazado, onde está o sino rematado por cruz de pedra. O corpo da direita distingue porta central ladeada por janelas gradeadas, por cima das quais consta a inscrição latina já pouco legível e, no mesmo enfiamento da porta, uma janela.

Já o corpo interior compõe-se de um varandim a todo o comprimento, assente em colunas de granito. No coro alto, as grades são de madeira, com colunas também de madeira no enfiamento das de pedra. O tecto em madeira, porventura anteriormente pintado, levou uma velatura em cor pérola, assim como toda a estrutura de madeira. O antigo órgão (segundo consta, belíssimo) foi substituído por um contemporâneo. Desapareceram também as inúmeras cadeiras almofadadas de várias épocas e estilos, com o nome dos seus utilizadores, que conservavam a atmosfera medieval da origem do templo. Deram lugar a bancos corridos de madeira mais práticos e populares.

No livro publicado em 2015, "Foz do Douro de 1216 a 2016 — 800 anos da Paróquia de São João Batista", o qual se pode adquirir no templo, o Cónego Rui Osório informa que as últimas obras de conservação de 1998 sacrificaram o altar-mor e a azulejaria do exterior e interior. Segundo Agostinho Guimarães em "Azulejos do Porto", este revestimento formava um tapete de padronagem que remetia aos anos 80 do século XIX, sendo o desenho azul sobre branco como era comum nos edifícios religiosos da época. Clementina de Carvalho Quaresma, em "Inventário artístico de Portugal — cidade do Porto", diz que o lambrim de azulejo do interior que foi retirado apresentava figuras geométricas em azul claro e castanho escuro.

Interiormente, a capela é muito simples. Possuía antes um altar branco e ouro neoclássico, que foi retirado e substituído pelo anterior altar barroco da Senhora da Luz. Assim, no lugar de honra que cabia a Nossa Senhora da Piedade, passou a figurar a imagem de Santa Anastácia ainda ligada ao maneirismo. Outras esculturas sobressaem em mísulas, compondo o retábulo, tais como São João, Sagrado Coração de Jesus, Santo Coração de Maria e Santas Mães. Sendo que, à esquerda, figura também hoje São Brás.

E se mais podíamos adiantar, deixamos outras questões em aberto para uma breve visita à capela acrescentando que este rico património e sua conservação — no caso, desde a Era dos Descobrimentos —, são mais um motivo de orgulho de ser português. #História #Curiosidades #Artes