Parece um dado adquirido, os vários tipos de cancro estão a atacar cada vez mais. Será excesso de informação, ou estará o ser humano mais vulnerável? Dúvidas difíceis de responder. Poderemos ainda colocar o limite médio de vida como principal justificação mas verificamos que o cancro não escolhe idades. Então, será pela vida atribulada, exigente e sem qualidade que levamos?

Quem vive "paredes-meias" com esta doença, sente-se frustrado porque não sabe como foi escolhido. Sente-se corajoso porque vai à luta, mas sente-se impotente porque tem medo de perder. Quem vive perto de alguém que contraiu um cancro sente um misto de dor, de alento, mas também de frustração porque pouco ou nada pode fazer. Realmente não é fácil para o próprio, mas principalmente para os amigos e família. Todos os dias sabemos de amigos que contraíram vários tipos de cancro, destacando-se no homem o cancro da próstata e na mulher o cancro da mama.

Saber vencer, são teorias, ciência, sorte, dedicação, mas também fé, muita fé. Alguém um dia me disse: "Porquê eu?". Hoje sou eu que digo, porquê eu? Esperança e força, serão a última coisa a perder. Temos de reconhecer que há muitas outras formas de cancro: viver na miséria ou indigente, não será outra forma de cancro? Não ter amigos, nem família, não será outra forma de cancro? Viver sem emprego, sem sentido, sem esperança: não será outra forma de cancro? Se ele, cancro, nos escolheu, se quer viver connosco, temos de o aceitar. Fomos escolhidos. Se o conseguirmos expulsar, fomos mais fortes que ele. Não fomos nós a escolhê-lo, por isso temos todo o direito de o expulsar. Por vezes é muito tarde, ele não permite separar-se de nós, porventura nasceu connosco e quer morrer connosco. Mas será que aquelas moléculas desastradas algum dia conseguirão morrer?

O cancro pode ser uma forma positiva de transformar uma vida negativa. Acordar, viver o dia-a-dia, saber viver cada minuto. Reconhecer que há outros "próximo" para além do eu. Saber combater o excessivo ego ou narcisismo inusitado. O cancro também é convidado por nós, como? Através de uma vida sem regras, sem momentos próprios, sem amor, sem limitações, sem dedicação a causas. Dirão: fulano e fulano eram certinhos e contraíram cancro. Pois, se foram escolhidos, algo lhes estava destinado. Deus só dá ao homem aquilo que ele merece ou consegue combater.

Olhando para trás, é fácil descobrir os erros que permitiram esta tão estranha visita. Mas o ser humano dificilmente olha para trás, o ser humano não gosta de retro-visor, o ser humano adora acelerador. Dizia Chico Xavier: "Você não pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas você pode começar agora e fazer um novo fim". Então o que esperar? O cancro chegou, vamos combater esse intruso não convidado, vamos começar e preparar um novo fim.

Também, esse estranho aliado, por vezes faz-se adormecido e, qual alcateia feroz, ataca logo que o dono adormece. Há que estar atento, vigilante, "não esconder a candeia debaixo do alqueire" Mateus 5-15 ou "vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora! Mateus 25:1-13. Sabemos contudo que, provavelmente, todo o sofredor de cancro, sabendo que está em situação final irreversível, prefere partir. Sabe que está a sofrer, mas sofre muito mais quem não tem dores físicas, quem não consegue dar aquilo que tanto desejaria, a saúde a quem dela necessita.

É preciso saber viver com cancro, mas é muito mais fácil escrever ou dizer, do que sentir. Lá no fundo, no íntimo, somos todos iguais, uns medrosos temendo pela avaliação final quando prostrados diante do verdadeiro Juiz. Aquele que tantas vezes tentámos enganar, enganando-nos. A morte não é o fim, é simplesmente a interrupção de um período. Há que acreditar, amanhã é outro dia e o Sol nascerá.