A epidemia do vírus ébola, que tem vindo a assolar a África Ocidental durante os últimos meses, está a dar finalmente sinais de recuo. A Libéria anunciou, na semana passada, ter apenas 5 casos da doença confirmados, actualmente. E embora os números não sejam confirmados pela OMS, existe outro sinal evidente de que as autoridades da região estão menos preocupadas com a doença. O Senegal reabriu a fronteira terrestre com a Guiné-Conacri, um dos três países identificados como foco da doença, cerca de 5 meses de ter determinado o seu encerramento.

A própria OMS já emitiu um comunicado, quase em tom de balanço, reconhecendo que "foi lenta" na reacção à doença e que é necessário tirar ilações para o futuro. "Não há espaço para complacência", foram as palavras da directora Margaret Chan. A epidemia provocou cerca de 9000 mortes, com a esmagadora maioria situada nos três países africanos onde o foco se tornou endémico (Guiné-Conacri, Serra Leoa e Libéria). Contudo, e apesar de mais uma vez não se terem concretizado os cenários de apocalipse que se viram nos jornais e nas redes sociais na Europa durante o Outono - como não se concretizaram com vírus anteriores, como a gripe das aves - este é um estudo de caso para as dificuldades que África ainda atravessa, mesmo em países que o Boko Haram ainda não consegue alcançar.

Nos três países africanos, o cenário de colapso do Estado de que falava o governo liberiano acabou por não se verificar. Contudo, e além do drama humano - especialmente na Serra Leoa, país que já estava em 183º lugar em 187 países no Índice da Desenvolvimento Humano da ONU, antes do ébola - são também os danos provocados no capital humano e na possibilidade destas economias frágeis de continuarem a progredir. A Serra Leoa e a Libéria foram devastadas por anos de guerra civil - tornada famosa com o filme Diamante de Sangue, de 2006, com Leonardo di Caprio no principal papel - e esta tragédia era a última coisa que países semi-destruídos e em reconstrução precisavam.

Ficaram patentes também as insuficiências dos sistemas de saúde pública destes países africanos, principalmente em termos de infra-estruturas capazes de acolher e de ajudar a conter a epidemia - situação eventualmente agravada pelas políticas do FMI seguidas por estes países, de acordo com um estudo divulgado há algumas semanas. Já quanto ao esclarecimento da população sobre aos riscos envolvidos, fica a ideia de que as autoridades nem sempre conseguiram passar a mensagem (há inúmeros relatos de comportamentos de risco, por desconhecimento, relativamente a formas de evitar a doença) mas acabaram por conseguir impedir o contágio, graças a medidas rigorosas e extremas quanto à circulação de pessoas e bens (fronteiras encerradas, medidas de quarentena, proibição de feiras, festas e outros pontos de concentração, etc.)

Na Guiné-Bissau, situada entre a Guiné-Conacri e o Senegal, tantas vezes referida pelos piores motivos (depois de vários anos de guerras civis e golpes de estado), as autoridades também tomaram medidas de controlo do contágio e o país conseguiu escapar ileso da epidemia. A Serra Leoa é, à data e de acordo com os últimos relatórios, o país onde a epidemia ainda apresenta mais riscos, tendo sido também o país mais afectado. #Ébola