Blasting News - Nestes casos, há algum peso de responsabilidade da própria sociedade que difunde a ideia idílica dos olhos azuis, por exemplo?

Natália Dias - A construção social da imagem de um corpo ideal que é transmitida por diversas vias da comunicação social pode exercer claramente um efeito negativo sobre a imagem corporal que a pessoa vai construindo sobre si e como ela se sente perante uma possível discrepância que pode existir entre o que é esperado/ideal e como ela é verdadeiramente. Isso pode culminar com uma insatisfação com o próprio corpo, com possíveis repercussões sobre o seu bem-estar psicológico. Para além disso, a difusão destas imagens é acompanhada muitas vezes de uma ideia de felicidade, sucesso, saúde e de obtenção de benefícios secundários que devem ser desmistificados. O foco apenas na aparência externa em detrimento da pessoa pode conduzir a um desgaste psicológico e mesmo físico, na procura constante e incessante para se enquadrar nos moldes construídos.

Uma vez mais, é importante ter em consideração que a decisão de efectuar qualquer mudança ao nível da aparência estética nunca é simples, ou seja, não podemos afirmar que se deve apenas à existência de um padrão de corpo ideal, uma vez que se verifica também inúmeros factores de natureza individual, que se influenciam mutuamente. Devemos ser capazes de identificar e analisar cada peça do “puzzle” que parece surgir completo, com o objectivo de que esta desconstrução permita uma compreensão de como estas peças se reagruparam no sentido de uma imagem total. Por vezes, há a necessidade de voltar a reconstruir um novo puzzle, com novos rearranjos e normalmente as pessoas procuram ajuda especializada nesse sentido, com vista a uma diminuição do sofrimento psicológico.

Débora Água-Doce - Não creio que a sociedade nos incute que determinada cor de olhos é que é bonita, mas sim, existe uma influência enorme da sociedade e na forma como nos apresentamos enquanto imagem.

Blasting News - Existe cada vez mais informação na internet que afirma que estes procedimentos são seguros, reversíveis e somente de nível cosmético. São informações erróneas. Tendo em conta que é difícil controlar o fluxo de informação que passa na internet, importa educar melhor os pacientes?

Natália Dias - Uma vez que este procedimento de transplante intra-ocular não está aprovado em Portugal e na maioria dos países, ele está a ser realizado de forma clandestina, com implicações do ponto de vista ético e deontológico. A comunicação social desempenha um papel muito importante na divulgação de informações sobre os procedimentos estéticos existentes, devendo ter o cuidado de mobilizar apenas informações fidedignas e credíveis de especialistas na área e de entidades competentes para o efeito. Neste caso, as sociedades e associações na área da oftalmologia têm desempenhado uma função muito importante no alerta lançado à população em geral sobre as consequências graves que este procedimento pode acarretar, com danos irreversíveis, que podem levar à cegueira.

Em relação aos psicólogos, temos o dever ético de assinalar os riscos da realização de tais procedimentos, fornecendo o apoio e as informações necessárias para que a decisão seja tomada com a ponderação de todos os elementos envolvidos. Para isso, devemos estar conscientes destes novos procedimentos estéticos, obter informações pertinentes sobre os mesmos e quais as suas implicações para a saúde.

Débora Água-Doce - Sem dúvida! Existe a necessidade de uma verdadeira transparência! Estamos a colocar em causa a saúde de uma pessoa em prol da sua imagem. Parece que a clínica estética já não tem limites e a nossa liberdade passa por conseguirmos “dizer não” a estas transformações, aceitando quem somos. #Casos Médicos #Vida Saudável