A verdade é que o número de casos de anorexia e bulimia crescem em Portugal de uma forma severa. Na tua opinião, qual é o papel da sociedade actual? Há um crescente culto da imagem perfeita?

Não posso mentir quanto ao meu ideal de beleza porque eu gosto de uma mulher magra mas definida, isto é, que se veja que trabalha o corpo. Curiosamente acho que a indústria cinematográfica já não propagandeia a magreza extrema ao contrário do mundo da moda que ainda tem muito que mudar.

A informação que salta nos media de “curas” milagrosas para as gorduras e celulite é de tal forma errada e irreal que só continua a alimentar os distúrbios alimentares.

Qual era o teu protótipo de imagem perfeita?

Para mim a mulher perfeita era aquela que não tinha barriga, era literalmente uma tábua (mas sem definição), com umas pernas magras e longas e uns braços finos e torneados. Para mim, isto era ser delicada e perfeita.

Em Portugal existem já vários centros especializados no tratamento da anorexia e bulimia nervosas. No teu ponto de vista, a atenção dada a estas doenças tem sido suficiente?

Acho que não. Esta doença ainda é vista muito como uma “paranóia” de miúdas que não têm o que pensar e que são umas fúteis (falo em miúdas porque a percentagem de mulheres com esta doença é ainda muito superior à dos homens). O pior é que é uma doença silenciosa. Quando se começa a perceber que estamos perante um distúrbio alimentar é porque já está numa fase bastante avançada. Toda a atenção que possa ser dada aos distúrbios alimentares serve mais para quem conhece ou convive com pessoas doentes porque, para nós, vermos essas mensagens, imagens ou histórias não nos faz grande diferença. Vemos, dizemos “que horror” mas continuamos focadas e obcecadas com a nossa imagem “feia e gorda” porque não somos como elas, que são magras e não vêem. Uma pessoa com um distúrbio alimentar é forçosamente egoísta.

Hoje, que mensagem deixarias a todas as pessoas que estão neste momento a debater-se com esta doença?

Não desistam. Eu não desisti e não desisto. Todos temos alturas em que parece que nada do que fazemos está a ajudar, que ganhar peso só nos traz mais tristeza. Mas não podemos deixar que a nossa cabeça vença. Todos temos alguém que nos ame, que se preocupa connosco e que está a sofrer ao ver-nos a morrer aos pouquinhos. Porque sim, nós estamos a matar-nos e é uma morte lenta e dolorosa. Vencer esta doença só depende de nós mas, porque sei que não gostamos sempre de nós, façam-no por aqueles que nos rodeiam, que nos amam e que se sentem impotentes ao ver a nossa destruição.

 

Obrigada Inês pela tua coragem e por te disponibilizares a ser um exemplo para muitos que ainda sofrem em silêncio. #Casos Médicos #Jovens