Num momento em que tanto se fala da aparência física e do estado de saúde da actriz Angelina Jolie, importa saber mais sobre um distúrbio alimentar que actua de forma silenciosa e destrói. Destrói o doente. Destrói a família que aprende a lidar diariamente com o significado da palavra impotência. Conheça o caso de Inês Pinto Viana, uma jovem que perante as vicissitudes da sua vida, se deixou entregar à doença mas que tem sabido dar a volta por cima e superar-se dia após dia. 

Descreves o teu problema como um “misto de anorexia nervosa com bulimia”. Hoje, com alguma distância temporal, como descreverias esta fase da tua vida?

Sempre que penso no que já passei dá-me um aperto no peito. Foi uma época muito má, em que sofri imenso e fiz sofrer pessoas de quem gosto muito. Nesta fase dizia coisas que não sentia, era má e egoísta. Tinha reacções incompreensíveis e explosivas. 

Como não posso mentir, não posso dizer que já ultrapassei o problema. Aprendi sim a lidar melhor com ele e a procurar todos os dias olhar para mim e gostar do que vejo. Confesso que há dias em que isso é difícil e só penso que queria ser magra outra vez mas, tento dar a volta e tenho um apoio enorme da minha “fitfam”. Penso que uma pessoa com um distúrbio alimentar nunca fica totalmente “curada” mas aprende a viver e a conviver com a alimentação e com a imagem de uma forma menos obsessiva e irracional.

Quando e a partir de que momento sentiste que tinhas um problema de saúde e que era necessário recorrer a ajuda médica?

Comecei a consciencializar-me de que não estava bem num verão em 2011 depois de ter uma conversa (na qual só chorava) com uma amiga minha que também tinha passado por uma anorexia. Em Setembro desse ano comecei a ir a um psiquiatra mas foi só gastar dinheiro à minha mãe porque não estava convencida de que precisava realmente de ajuda. Achei que conseguia sozinha (pese embora tivesse começado a fazer medicação). Acho que só tomei consciência quando vieram os resultados das análises depois de ter dito à minha tia, que é médica, que sentia uns calores repentinos e que tinha de tirar a roupa. Estava em menopausa e com sérios riscos de ficar infértil.

Durante este período, como era a relação com a sua família?

Foi bastante complicada porque, por um lado, queria ficar boa mas, por outro lado, tinha um medo enorme de voltar a ser gorda. A nossa cabeça é a nossa pior inimiga e como não estamos bem connosco, quem está ao nosso redor, quem nos é mais próximo é quem leva com a frustração, com o medo e com a “maldade” que exteriorizamos para tentar fazer com que nos sintamos melhor. A minha família passou por muito e só tenho que lhes agradecer por nunca terem desistido de mim.

Os amigos são a família que escolhemos. Qual o papel que os teus desempenharam nesta difícil fase da tua vida?

Os meus amigos foram imprescindíveis, sem eles sei que não conseguia ter chegado onde estou hoje. Os verdadeiros amigos nunca desistiram de mim mesmo ouvindo SEMPRE “não”. Devo-lhes a vida. O carinho, a preocupação constante, o cuidado, o amor que me deram foi, sem dúvida, fundamental para dar os primeiros passos para a cura.

Como é que te sentias em relação à comida?

A comida era uma coisa que me dava angústia. Se era eu a preparar tudo corria bem. Fazia porções bizarras de legumes, um bocado de proteína e os hidratos eram restringidos ao máximo (gorduras nem vê-las). Depois quando tinha eventos sociais, que têm sempre comida, vivia num tormento: ou porque não comia nada e ficava a olhar com um ar de tristeza ou porque me “permitia” comer e comia tudo o que via à frente. Era literalmente um aspirador sem regras: comia tudo até ficar mal disposta quase a vomitar. No dia seguinte restringia tudo o que comia (se chegava a comer 400 kcal era óptimo) e compensava com exercício físico.

Chegaste a recorrer a algum tipo de medicamento?

Sim, tomei ansiolíticos e anti-depressivos (medicação que deixei sozinha gradualmente em Abril do ano passado).

 

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