Ana Manuela Teixeira, Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia no Hospital Distrital de Santarém, disponibilizou-se para esclarecer dúvidas sobre o parto e alertar para as consequências negativas do pós-parto de uma cesariana.

Qual a diferença entre a prática da cesariana e do parto vaginal?

Existe o parto eutócico, que é o chamado parto normal, em que se nasce por via vaginal e há o parto distócico que pode ser cesariana, pode ser um parto fórceps ou pode ser parto de ventosa. Se for cesariana é por via abdominal; portanto, por uma operação, e se for por via fórceps ou ventosa é por via vaginal na mesma, mas com ajuda, claro.

Qual o número médio de cesarianas e partos normais realizados no hospital?

Hoje em dia há muito mais partos por via cirúrgica. No hospital onde trabalho existe uma média de 1600 partos por ano, dos quais cerca de 25% são, provavelmente, cesarianas.

Qual é a sua perspectiva sobre a ideia defendida pela Associação Portuguesa de Bioética de que as futuras mamãs deveriam ter a possibilidade de escolha da via de parto que desejam ter?

No meu ponto de vista, as mulheres grávidas quando estão em “sofrimento”, isto é, quando têm muita dor, aí acho que a dor deve ser colmatada com uma cesariana. Pronto, é mais fácil para elas chegar ali, fazerem uma cesariana e não terem de estar a passar por uma dilatação dolorosa durante várias horas e por um parto normal. Mas o que acontece é que, em termos de pós-operatório, num parto normal ou vaginal é muito mais fácil a sua cicratização e mesmo a sua a recuperação. As 24 horas após um parto por via cirúrgica são muito mais dolorosas do que num parto normal. A cesariana é sempre uma cirurgia e a pessoa é sempre submetida a uma anestesia, quer seja por epidural quer seja geral, daí que haverá sempre o problema de existir uma incisão e um corte que pode trazer vários riscos à saúde da mulher, como uma grave infecção. Portanto, ocorrem muitos mais riscos com uma cesariana do que com um parto normal e a recuperação é muito mais tardia. Mas hoje em dia também nos partos por via vaginal as dores na maioria das mulheres já são colmatadas através da analgia do epidural.

Por que é que acha que as mulheres grávidas preferem a cesariana?

Esta situação tem a ver com o facto de as mulheres grávidas ainda mostrarem o medo que têm em estar à espera aquelas horas todas até ao parto, aquele período de dilatação que geralmente é doloroso. Com uma cesariana já não têm de esperar aquele tempo todo com dores.

A idade materna do primeiro filho é cada vez maior. Acha que esse é um ponto a favor da prática da cesariana?

As mulheres cada vez têm filhos mais tarde. É um facto. Antigamente não, era mais cedo. Agora vai até aos 45 anos. Há mulheres que ainda optam por ter o primeiro filho a partir dos 40 anos e isto tem a ver com a sociedade em si e também porque as pessoas, hoje em dia, estudam até mais tarde: primeiro tiram os cursos, procuram o primeiro emprego e só depois de terem uma vida estabilizada é que casam e optam por ter filhos. Isto tem a ver, fundamentalmente, com a nossa sociedade e com o poder de se poder escolher de ter um filho mais tarde e nessa altura já não há aquele medo. Talvez esse seja mesmo uma forte razão para a prática da cesariana.

Assistem-se a disparidades evidentes entre as práticas observadas no sector público e no sector privado. Quem tem dinheiro para pagar é quem faz cesarianas?

A privada distingue-se do hospital público no aspecto de que o primeiro dá poder à mulher grávida e ao casal de poder escolher o parto. Se a pessoa tem efectivamente dinheiro, se tem seguro e não quer correr o risco de estar à espera do tempo de se fazer uma dilatação completa para se ter um parto normal, então muito bem. Algumas até optam por escolher o dia e a hora em que querem ter o parto por cesariana e se hoje em dia se isso é possível, faz-se facilmente. Neste momento, a cesariana é para quem pode e não para quem quer. #Casos Médicos