“Eu acho que a minha avó, se calhar, já tinha perdido um bocadinho a esperança. A minha avó está com 89 anos… e se calhar achou que eu já não queria ser mãe. Quando lhe disse foi uma felicidade enorme. E foi também ver nos olhos dela reativada a esperança de que vai ser mais uma vez bisavó, de uma filha minha neste caso.” As palavras são de Sofia Cerveira, atriz e apresentadora de 41 anos, no sétimo mês de gestação de Vitória, a bebé que lhe trouxe a felicidade dos dias serenos e que lhe ensinou uma outra forma de se poder amar.

A maternidade de hoje em dia está a ser adiada para idades cada vez mais tardias. Apesar de os 25 anos serem normalmente considerados o pico da fertilidade feminina, fatores de ordem social, económica ou profissional estão a influenciar na opção por uma #gravidez numa idade mais avançada.

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A base de dados Pordata divulga que, desde 1990, a idade média da mãe ao nascimento do seu filho aumentou de 27 para 32 anos de idade. Já o Instituto Nacional de Estatística refere que 20% dos nascimentos têm origem numa gravidez aos 35 ou mais anos.

As explicações para tais dados estatísticos podem ser de ordem diversa. As situações profissionais instáveis, as consequentes dificuldades financeiras ou mesmo a falta de uma base familiar sólida são muitas das vezes as razões apontadas para o adiamento da maternidade ser cada vez mais comum.

A instabilidade no emprego

Maria Clara Guedes, como Sofia Cerveira, aventurou-se na maternidade aos 40. Conta que as tentativas para engravidar já duravam há cerca de quatro anos e que contou com o apoio do Centro de Procriação Medicamente Assistida da Maternidade Alfredo da Costa para ultrapassar alguns problemas durante a gestação.

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Depois de uma longa espera por uma situação profissional estável, Maria Clara confidencia que “mesmo aos 40 anos não tenho trabalho certo, mas é óbvio que a vontade de ser mãe acabou por falar mais alto. Sou professora contratada e todos os anos mudo de escola. Tenho trabalhado em mais do que uma escola para tentar completar o meu horário de trabalho. Naturalmente esta foi a principal razão para o adiamento da maternidade”.

A maternidade em idade avançada está fortemente conectada com o facto de a #Mulher de hoje em dia ter uma preocupação cada vez maior com a sua formação académica e consecutiva carreira profissional, o que, por consequência, acaba por atrasar a idade da gravidez.

Maria Clara advoga que não lhe parece existir uma idade certa para a primeira gravidez, mas explica que aos 25 anos a mulher é biologicamente mais fértil; “no entanto a vida académica e profissional da mulher não é compatível com este ideal físico”, pelo que o adiamento da maternidade é cada vez mais comum nos dias de hoje.

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Uma das consequências da demora é que a gravidez depois dos 30 e 40 anos redobra os riscos de saúde para a mãe. Sucessivos abortos espontâneos que poderão conduzir à infertilidade, diabetes, obesidade e hipertensão são alguns dos fatores que podem complicar o período de gestação e contribuir para uma gravidez de risco.

Natália Pinto engravidou de forma não planeada e pela terceira vez aos 40 anos. Revela que, por imposição da idade, a ginecologista lhe determinou alguns cuidados – “durante a gravidez não podia pegar em pesos, não podia fazer esforços, tive de fazer dieta e estar bastante tempo de repouso”. Depois de seguir à risca as indicações da sua médica, Natália conta que o parto correu muito bem e a bebé nasceu de perfeita saúde. Mas podia não ser assim.

Apesar de uma maternidade tardia poder acalentar riscos para o bem-estar da mãe, também o próprio bebé não está imune à ocorrência de problemas de saúde. Um dos casos mais comuns é o parto em fase prematura, que leva ao redobrar dos cuidados após o nascimento do bebé. Outro dos riscos é a malformação a nível dos cromossomas, que pode conduzir ao desenvolvimento de deficiências e problemas genéticos, como o Síndrome de Down.

Para evitar todos esses riscos na gravidez, Natália confidencia que a mulher deveria fazer os possíveis para ser mãe ainda jovem e não deixar as questões da maternidade para idades tão avançadas, pois “a diferença de idades faz com que percamos a paciência mais rápido, faz com que deixemos de poder acompanhá-los tão facilmente. Se fôssemos mais novas certamente teríamos mais disponibilidade, até mesmo mais energia”. Maria Clara também partilha do mesmo sentimento e revela que, “caso tivesse engravidado mais cedo, teria maior capacidade física para acompanhar a fase mais exigente do bebé, que requer uma atenção constante”.

Apesar de genericamente acreditarem que a grande diferença de idades entre pais e filhos possa não ser benéfica para a relação de ambos, Maria Clara deixa escapar que aos 40 anos “conseguimos prescindir com maior facilidade de determinados tempos e atividades que tínhamos antes de sermos pais, em benefício do bebé”. Desta forma, poderá ser mais difícil para os pais jovens abdicarem do seu próprio tempo para o dedicarem por completo ao seu bebé.

Pressão familiar

Apesar de factualmente estarmos num ponto de mudança em relação à idade da maternidade, a sociedade parece ainda estar habituada ao ideal do nascimento do primeiro filho nos dois, três anos seguintes ao casamento. Parece existir uma espécie de pressão social em relação à mulher que não engravida quando entra na casa dos 30 anos. Maria Clara acredita “que haja ainda algum preconceito relativamente às mulheres que são mães mais tarde, mas também acredito que não valorizei demasiado este ou aquele comentário menos próprio”. Revela ainda que “não houve pressão do 1º anel familiar, mas que terá havido alguma pressão ‘saudável’ do 2º anel, com a tal pergunta anual: ‘então e bebés’?”.

Esta questão prende-se também com o papel da mulher desempenhado na sociedade, uma vez que ela ainda é vista como a mãe, a cuidadora da #Família, a educadora das crianças. A ausência de filhos retira-lhe o papel que supostamente lhe deveria pertencer em sociedade, desintegrando-a e excluindo-a. “As mulheres ainda são vistas como uma máquina reprodutora e quando se negam a fazê-lo é quase como se negassem a sua essência”, comenta Natália Pinto.