A festa de passagem de ano é um fenómeno mediático a nível mundial. Contudo, não só em Lisboa, mas em todo o país, verificou-se uma grande mudança, nas últimas décadas, na forma de festejar a despedida do ano velho e as boas vindas ao ano novo. Se os ditames austeros da igreja católica, durante vários séculos, impediram as classes populares de festejar a passagem de ano, tal não se reflectia nas classes mais abastadas, como a nobreza ou a burguesia, que dispunham de meios para organizar as suas próprias festas de Reveillon, na privacidade dos salões das suas casas.

A partir dos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, com o crescimento da sociedade urbana e o aparecimento de uma classe média citadina e mundana, começaram a surgir os espaços de diversão nocturna. Os clubs, cabarés e casinos, juntamente com os cinematógrafos, começaram a tomar o espaço que, até então, era reservado exclusivamente aos teatros e cafés. Era nesses novos espaços que a emergente e confiante classe média, trajando a rigor, celebrava as suas passagens de ano, ao passo que as classes populares, que habitavam maioritariamente os bairros históricos, celebravam o fim do ano entre a vizinhança ou frequentando as sociedades recreativas que haviam surgido por vários bairros lisboetas. Terá sido, aliás, entre as classes populares que surgiu o hábito, que se mantém até hoje, de bater com tampas de tachos e panelas à janela para celebrar a chegada do novo ano.

Estas diversas formas de festejo da passagem de ano mantiveram-se durante grande parte do séc. XX, tendo sido já na década de 1980 que os hábitos começaram a mudar, uma vez mais, com o advento de novos espaços de diversão nocturna, como as discotecas ou danceterias. Nesses locais, sobretudo as camadas mais jovens, começaram a juntar-se para, ao som das músicas da moda, dar as boas vindas ao novo ano. Já na década de 90 do séc. XX, a autarquia de Lisboa, bem como várias outras autarquias do país, inspiradas pelo potencial turístico do fim de ano do Funchal, no arquipélago da Madeira, começaram a proporcionar aos seus munícipes, a título gratuito, concertos de fim de ano nas principais praças. Estes novos festejos contam com a presença de vários artistas consagrados do panorama nacional, acompanhados por vistosos espectáculos de fogo-de-artifício após a meia-noite que marca a passagem de 31 de Dezembro do ano velho para 1 de Janeiro do novo ano. Fica assim garantida uma festa de passagem de ano acessível a todos.  #Curiosidades