"Estava num café, ao balcão, de copo na mão e perna traçada". Fernanda, 65 anos, olhou para Jorge, de 55, e disse: "Gosto deste homem". A relação entre mulheres mais velhas e homens mais novos é a nova tendência em Portugal. Rui Ferreira Nunes, psicoterapeuta, explica que a atracção pessoal e sexual pode ter origem em factores antropológicos e do ponto de vista do inconsciente. Apesar da falta de dados estatísticos que a comprovem, a verdade é que este comportamento se tem evidenciado na última década. Actualmente, verifica-se uma mudança no modelo de relação, que tem vindo a ultrapassar as barreiras impostas pela sociedade tradicional. Longe estamos do tempo em que o homem era a trave da #Família e, portanto, a referência machista que detinha o poder.

Fenómenos sociais e culturais transformaram o papel da mulher na sociedade na década de 50. "A maior liberdade sexual, o surgimento da pílula, a cada vez maior participação no mercado de trabalho e a sua independência financeira, mostram que a mulher encara a realidade de forma diferente nos dias de hoje", diz Fernando Mesquita, psicólogo e sexólogo. A mulher passa de uma simples dona de casa a executiva, ocupando estatutos profissionais relevantes, factor que desperta o interesse do homem e eleva os níveis autoconfiança na mulher.

É o caso de Rita, que aos 53 anos se sente mais realizada desde que iniciou a relação com Alberto, de 49. Divorciados, com quatro anos de diferença, conheceram-se no local de trabalho de Rita e aproximaram-se devido a interesses comuns. Procuravam alguém "trabalhador, honesto, responsável". A idade nunca foi problema. Para Alberto, os oito anos de convivência com Rita têm sido "excelentes". "O bom relacionamento e a estabilidade" sustentam a relação, que se torna menos quente com o passar dos anos.

Interesses comuns levaram a que Joana, 36, e Tiago, 28, se conhecessem. A beleza, simpatia, vontade de lutar e o gosto por ir à bola chamaram a atenção de Tiago. A diferença de idades não teve relevância. Embora, na opinião de Alberto, se a diferença for maior, a longo prazo começará a pesar. Ao iniciar uma relação, a idade não é questionável. Contudo "com o passar dos anos, começam os problemas. Aos 40 começam a aparecer as doenças, o corpo começa a transformar-se, o comportamento altera-se". Susana, 41, encara com naturalidade os sete anos que a separam de Luís, de 34. "Espero que quando for velhinha ele me empurre a cadeira de rodas".

Segundo Rui Nunes, as mulheres sofrem mais com o envelhecimento. A insegurança abate-se sobre o sexo feminino que, por valorizar o aspecto físico, receia a perda de atributos e desejo por parte do homem. O preconceito. Rita e Fernanda afirmam nunca ter sentido. No entanto, Ana, de 22 anos, diz ter sido tratada de forma diferente por ser quatro anos mais velha que Luís. "As minhas amigas não aceitavam que namorasse com um miúdo [na altura] de 16 anos. Os meus pais não aceitavam que namorasse com um rapaz da idade do meu irmão".

A sociedade portuguesa não encara este tipo de relacionamentos com naturalidade. Os estereótipos são frequentes. A maioria não aceita a possibilidade da existência de um verdadeiro amor entre faixas etárias diferentes, em que a mulher é mais velha. "O padrão dominante no casamento é o do homem mais velho", diz Fernando Mesquita. Vivemos numa sociedade pautada por regras, o que dificulta a aceitação de comportamentos que se desviam da normalidade. Inseguros, questionam-se se devem assumir a relação. "Inicialmente, ele mentiu-me. Disse-me que tinha 20 anos", diz Ana.