Portugal é actualmente o sexto país mais envelhecido do mundo e, em 40 anos, passou de país com a maior taxa de natalidade da Europa para detentor da taxa mais baixa. Temos cada vez menos filhos, e de acordo com os resultados do último Inquérito à Fecundidade, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, em 2013, 9% dos homens e 8% das mulheres portuguesas não os têm nem tencionam ter.

Nem a natalidade a descer os comove. E têm argumentos; no caso de Patrícia Querido de 35 anos, a carreira. "Tinha 20 e poucos anos quando decidi que não queria ter filhos. Era bailarina profissional, não tinha disponibilidade." E não se pense que quem não quer filhos não gosta de crianças. "Sou maternal, mas sem instinto para ser mãe. Não me acho menos mulher por isso, mas nem sempre é fácil os homens aceitarem." Patrícia dá aulas a crianças e isso faz com que a curiosidade das pessoas à sua volta aumente: "«Não tem filhos? Como é que uma professora não gosta de crianças?» A nossa sociedade ainda é um pouco machista, imagina eu que sou separada, estou solteira, independente, free spirit e que não quero ter filhos."

Quanto a arrependimentos, Patrícia garante que não os tem. "Não me arrependo. Mais depressa me vejo em África a montar uma escola rodeada de muitas crianças do que me imagino com filhos e todo o aparato que isso traz."

Foi também desde cedo que Sofia decidiu seguir um estilo de vida sem horários ou rotinas, impróprio para crianças. "Estou com o João há mais de 20 anos; eu nunca quis ter filhos, ele queria mas uns anos depois entendeu a minha posição e também desistiu da ideia." Actualmente Sofia tem 46 anos, João 51 e garantem que lhes sobra ordenado ao fim do mês. "Com crianças tínhamos de fazer uma maior ginástica orçamental e em termos de tempo também ia ser muito mais complicado. Assim temos disponibilidade para viajar, ficar a fazer horas no trabalho sem culpa, e acima de tudo dormir o que nos apetece ao fim de semana. Estamos bem assim", garante João Morais.

No início do casamento a #Família não via com bons olhos a decisão dos dois, mas com o tempo foram aceitando a ideia: "foram vendo que era uma decisão pensada e que acima de tudo era do casal. O nosso casamento nunca saiu abalado por sermos só nós dois em casa, mas claro que já perdi a conta às vezes que me perguntaram se não quero mudar de ideias enquanto tenho tempo. Dizem-me sempre que não é normal ser casada há tantos anos e não ter filhos. Eu não vejo anormalidade nenhuma nas minhas escolhas", defende Sofia. 

São cada vez mais os casais que optam por uma vida a dois. Nos últimos 20 anos os casais sem filhos passaram de 648 mil para 914 mil, segundo os dados do Pordata. Os últimos dados do INE, acentuam a tendência: no início da década de 90 eram 32%, em 2011, 41,2% dos casais viviam sem filhos. Por várias razões: porque nunca os tiveram nem querem ter, porque foram adiando a decisão, ou porque vivem já sem eles (os valores também incluem casais cujos filhos já saíram de casa). Têm mais tempo e dinheiro para tudo. Não têm crianças por opção e não sentem que lhes falte nada. A vida deles também é cheia sem filhos.