O auditório do Fórum de Davos, nas montanhas da Suíça, ficou espantado quando foi anunciada a morte da privacidade em favor do desenvolvimento da tecnologia. Para Margo Seltzer, professora de ciência da computação na Universidade de Harvard, não é de espantar que hoje alguém vá a uma loja comprar um produto e o encontre já embrulhado. Porque o perfil comercial constitui-se hoje com uma antecedência que só a interferência na privacidade permite. "A privacidade, como a conhecíamos no passado, já não existe. As convenções acerca da privacidade morreram", acrescentou ela.

Outro pesquisador de Harvard em genética afirmou ser "inevitável" que a própria informação genética pessoal se torne cada vez mais exposta à esfera pública. Sophia Roosth documentou que agentes secretos de inteligência já foram convidados para recolher informação genética sobre líderes estrangeiros para determinar coisas como a sua susceptibilidade à doença e expectativa de vida. "Estamos no alvorecer da era do macarthismo genético", disse ela, referindo-se à perseguição aos comunistas em 1950, nos EUA.

De facto, sociólogos avisam que hoje a desigualdade social se mede pela posição económica, ou posição no mercado (Max Weber), mas a desigualdade do futuro vai ser a posição no mercado, não financeiro mas, da genética (saúde, vitalidade e envelhecimento); e o desenvolvimento da genética como generalização social vai exigir perdas de privacidade ou direitos sociais em troca. O futuro, que já está a acontecer hoje, é o de um mundo de mosquitos electrónicos de uma empresa de seguros ou de um governo que se reúnem à sua volta para lhe recolherem o DNA, afirmou Selzner. Invasões de privacidade serão cada vez mais difundidas", previu.

Quanto ao cientista político Joseph Nye, abordou o assunto delicado e controverso das comunicações criptografadas e a ideia de as regular para verificar se os governos podem ter acesso a mensagens mesmo criptografadas, no interesse da segurança nacional. "Os governos estão falando em colocar encriptação na comunicação, para que os terroristas não se possam comunicar sem serem vistos. O problema é que, se os governos podem fazer isso, também podem os terroristas", referiu Nye para a audiência. "Você preocupa-se mais com o seu irmão mais velho ou o seu primo desagradável?", ambos são sua família, referiu o cientista.

No entanto, apesar desta visão orwelliana pessimista, a mesa dos académicos teve o cuidado de salientar que os aspectos positivos da tecnologia, ainda assim, superam as restrições de privacidade que elas acarretam. Da mesma forma que podemos enviar pequenos drones para espiar as pessoas, podemos enviar a mesma máquina para uma enfermaria do ebola para "detectar os germes", disse Seltzer. "A tecnologia está aí, cabe a cada um de nós saber como usá-la", acrescentou. "Em geral, a tecnologia fez mais bem do que mal", disse ela, apontando os avanços "enormes" nos cuidados de saúde em algumas áreas rurais do mundo em desenvolvimento que só foram tornadas possíveis pela tecnologia.

Em geral, nesta sessão de Davos, os convidados parecem aceitar o limite de privacidade como parte da vida moderna. Como refere Anthony Goldbloom, um jovem empreendedor de tecnologia, "eu trocaria minha privacidade por conveniência. Privacidade não é algo que me preocupa".

O Fórum Económico Mundial realizou-se na estância de esqui suíça de Davos e reuniu cerca de 2.500 personalidades dos negócios e da elite política global para uma reunião, que terminou sábado.