A PSP divulgou os números relativos às denúncias apresentadas nesta força policial por violência no namoro, entre a população jovem. A estatística refere-se a 2014, sendo que houve um aumento de 50%. De cerca de 1000 queixas, em 2013, passou-se para cerca de 1500 em 2014. A Polícia de Segurança Pública fala em "desocultação" do fenómeno para explicar este aumento.

A "desocultação" prende-se com a tomada de consciência de que determinadas atitudes não são normais, nem aceitáveis, nem admissíveis. Em termos reais, não existem dados que permitam supôr que os casais de violência estejam, de facto, a aumentar. Contudo, à medida que a informação se espalha, que se cria uma consciência geral de que a bofetada não é admissível, é mais fácil que as vítimas não a aceitem da mesma forma; que alguém próximo da vítima a alerte, e lhe diga que isso é errado; e que o próprio agressor se torne consciente da gravidade do seu acto. 

A violência no namoro tem um carácter especialmente inquietante, não só pela violência em si, mas também pelas nossas expectativas em relação ao futuro. A expectativa da opinião pública é que este fenómeno se vá reduzindo. o mais possível. E ainda que algumas expectativas sociais se estejam a perder, que as gerações mais jovens estejam a aceitar que terão um nível de vida inferior ao dos pais, atribuído pelas crises e pela troika, outras expectativas vêem-se cumprindo. É o caso da descida no número e gravidade de acidentes rodoviários, em comparação com décadas anteriores.

Se esperamos que a violência doméstica recue, parece um contra-senso que o fenómenos surja nas gerações mais jovens. A sociedade sente que algo está a falhar; não achamos normal que jovens considerem o soco como um meio aceitável de relacionamento, ou que sejam incapazes de controlar os seus impulsos. E que jovens se permitam, ou por dependência emocional, fraca auto-estima, ou porque "é mesmo assim", aceitar ser vítimas desta situação. Desta forma, receamos que os números da "outra" violência doméstica continuem sem diminuir, como actualmente.

Neste sentido, esta é uma boa notícia. Pode surpreender-nos que a PSP receba 1500 queixas/ano em vez de 1000. Quem sabe se, em 2014, não aconteceram outras 1500 situações que poderiam ter sido correctamente denunciadas. Não sabemos. Contudo, um aumento desta ordem indica precisamente que há mais vítimas que não estão dispostas a aceitar isso em silêncio. Que estão dispostas a falar, a assustar os seus agressores, a pedir - ou aceitar - o apoio de familiares e amigos.

E a exercer uma avaliação simples e básica: se o namoro é uma experiência e um teste do que poderia ser um casamento, a violência significa que essa experiência falhou. Os valores da sociedade ocidental, que tantas vezes são invocados, e tantas vezes mal definidos, ou se diz que estão decadentes, passam por isto: liberdade individual, segurança, respeito pelo outro. Esta notícia significa que estamos a dar um passo nesse sentido.