De um lado o luxo dos países desenvolvidos no desperdício de alimentos, no valor anual de um bilião de euros, e do outro milhões de pessoas de países pobres a morrer à fome. É esta a realidade que se vive no mundo mas, para a FAO, o organismo das Nações Unidas para a Alimentação, a situação pode vir a piorar com o aumento da população mundial dos atuais 7,2 mil milhões de habitantes para os 9 mil milhões em 2050. O que implicará que, nas próximas três décadas e meia, a produção alimentar tenha de aumentar 60%, o que se antevê bastante difícil.

O representante da FAO em Portugal, Hélder Muteia, citado pelo semanário Expresso, aponta como uma eventual solução para o problema a produção de super-alimentos (onde se inclui a soja, lentilhas, beterraba, entre outros) e superplantas (mandioca, milho e arroz). O aumento da população mundial obrigará ao aumento da área cultivável mas esse crescimento ficará aquém do desejável, ou seja, as projeções da FAO apontam para um crescimento de apenas 20%. Ao aumento populacional estarão associados fatores como o acréscimo do consumo de alimentos e a concentração das populações nas cidades e, consequentemente, a falta de pessoas para trabalhar nos campos.

Uma outra questão importante que se coloca, segundo o representante da FAO em Portugal, é o financiamento do mercado de matérias-primas pelos investidores institucionais. Nesta matéria da alimentação, Hélder Muteia defende que o lucro não é tudo, estando em causa a dignidade humana e a vantagem de se conseguir ganhos sociais e a própria sustentabilidade humana. "É preciso discutir o problema com os principais atores do mercado e estabelecer princípios, regras, práticas e valores», afirma Hélder Muteia.

É alarmante a situação atual comparando o desperdício nos países desenvolvidos, ou em vias de desenvolvimento, com a falta de alimentos em algumas partes do mundo. Os países ricos desperdiçam nada menos do que um terço dos alimentos não consumidos, a que equivale um terço dos 4 mil milhões de toneladas de alimentos produzidos anualmente, num valor global de um bilião de euros. Do outro lado da moeda estão algumas regiões do planeta (principalmente em África) onde há 805 milhões de pessoas a passar fome. A FAO estima que, devido à má nutrição, morrem por ano 2,5 milhões de pessoas. Uma realidade chocante para o organismo das Nações Unidas, que dá conta ainda da existência de 100 milhões de crianças com baixo peso e, do lado oposto, 500 milhões de pessoas obesas. A comida continua a não chegar a quem necessita dela, ou seja, aos pobres e às populações desprotegidas e débeis.