Nunca se falou tanto de transexuais como no último ano. Em Portugal, o transexual Lourenço Cunha fez furor ao participar na Casa dos Segredos 4, e agora o mundo assiste à transição incrível de Bruce para Caitlyn Jenner. A revelação, esta semana, abriu as portas a uma discussão alargada - e talvez, pela primeira vez na história, a nível global. A reacção à mudança de sexo do antigo campeão olímpico tem sido sobretudo positiva, mas essa não é a experiência da maioria dos transexuais. Não é certamente a história que Lara Crespo, uma mulher portuguesa transexual, tem para contar.

"Comecei a minha transição em 2000. Confesso que, nestes 15 anos, me apercebi que pouca coisa mudou no sentido dos preconceitos e da discriminação, apenas ligeiramente 'aliviada' pela lei de alteração de nome e género de 2011", conta a transexual, hoje com 43 anos, à Blasting News. As estatísticas indicam que há 150 transexuais em Portugal, sendo que 70% das transições é de feminino para masculino, ao invés da tendência internacional.

Mas não foi o caso de Lara, cuja transição demorou perto de seis anos. Sofreu agressões físicas, foi sujeita a agressões verbais - que ainda se mantêm - foi vítima de perseguições e não teve o apoio familiar de que precisava. A transição para mulher acabou por ser o culminar de uma experiência de vida que lhe trouxe discriminação desde a primária. Era diferente.

"Não sei se sou 'passável' como a mulher que sou, mas as pessoas acabam sempre por saber por alguém que sou uma mulher transexual e isso prejudica todas as facetas da minha vida", conta, sublinhando que a sociedade portuguesa "de brandos costumes pouco tem." Com bacharelatos em Jornalismo e Design de Moda, trabalhou como jornalista e web designer, mas acabou por perder o emprego e não mais conseguiu um lugar no mercado de trabalho. Os anos trouxeram-lhe mais amargura que esperança.

Quase desde o início da transição, que necessariamente incluiu acompanhamento médico (é obrigatório na mudança), envolveu-se na causa transexual e tornou-se activista, fundando primeiro a já extinta Associação para o Estudo e Defesa do Direito à Identidade de Género e depois o Grupo Trans Portugal.

Em Março de 2011, beneficiou da entrada em vigor a Lei da Identidade de Género, que passou a permitir a qualquer cidadão proceder à alteração de sexo e nome próprio nas conservatórias de registo civil. Logo no primeiro ano, 78 pessoas utilizaram a legislação para fazerem a alteração. Lara foi uma delas. No entanto, esta vitória formal para os transexuais portugueses acabou por não ter grande impacto na forma como são tratados no dia a dia.

"Se agora eu for a uma repartição pública, consultório médico, hospital, mesmo que quem me atende tenha o intuito de me discriminar, legalmente sou uma mulher, como sempre deveria ter sido considerada e respeitada", conta Lara; por causa da lei, os funcionários já pensam "duas vezes" antes de discriminar. "Mas há muita discriminação encapotada, muitos preconceitos enraizados, seja por pura ignorância, seja por estupidez", lamenta.

Toda a documentação legal de Lara foi alterada para reflectir a sua identidade de género: é uma mulher, como sempre se sentiu, apesar de ter nascido num corpo de homem. A transição de Lara não afectou apenas o seu trabalho. Foi também duro a nível familiar, a vida amorosa passou por altos e baixos, e a situação monetária tornou-se um problema crónico: é uma desempregada de longa duração.

A opção de Caitlyn Jenner foi não fazer a cirurgia de redesignação de sexo (em que a área genital é operada), e Lara explica porquê. "Convém aqui ressalvar que ser-se uma pessoa transexual não implica que se queira fazer a cirurgia de redesignação de sexo. Umas pessoas desejam fazê-la, outras não, mas são todas transexuais", explica. É por isso que advoga para Portugal uma lei "integral" de identidade de género, semelhante à que existe na Argentina; no país sul-americano, qualquer pessoa pode ir a um notário, preencher o requerimento e pedir a alteração de nome e género sem interferência médica. É aquilo a que a comunidade chama "despatologizante", porque não encara a mudança de identidade sexual como uma patologia.

Tal não acontece "nem de longe nem de perto" em Portugal, "onde continuamos a ser consideradas e considerados 'doentes mentais'", reflecte a activista e blogger. Na Argentina, os transexuais têm acesso a tratamento hormonal comparticipado e podem fazer as cirurgias que entenderem através do sistema nacional de saúde. "Não somos doentes. Somos mulheres que lutam por sobreviver num mundo hostil a quem tem o azar de nascer transexual", sublinha.

Nem tudo é mau, no entanto. "Este ano foi dado um passo também relevante, que foi a inclusão no Código do Trabalho português da lei n.º 7/2009, de 12 de fevereiro, no sentido de consagrar a identidade de género no âmbito do direito à igualdade no acesso a emprego e no trabalho." Será suficiente para alterar o difícil percurso profissional destas pessoas? O que Lara Crespo pede, acima de tudo, é "respeito", quer gostem ou não gostem da sua escolha.

"Somos mulheres como as outras, independentemente das cirurgias, do tratamento hormonal", afirma. Gostaria que "não nos ligassem constantemente a uma vida de prostituição."

Lara esclarece ainda que os transexuais podem ter todo o espectro de orientações sexuais, desde hetero a bi ou homossexual. "A identidade de género é quem nós somos. A orientação sexual é por quem nos sentimos atraídas." #LGBT

Espera que o exemplo de Caitlyn Jenner ajude a mudar mentalidades e conclui com uma afirmação decisiva: "a identidade de género com que nascemos é que nos define, não os nossos corpos."