A comunidade transexual em Portugal é diminuta e a maioria das pessoas não conhece pessoalmente ninguém que se assuma como trans. No ano passado, a Casa dos Segredos 4 começou a quebrar barreiras com a inclusão de Lourenço Cunha, que fez a transição de mulher para homem e prometeu ajudar a acabar com os mitos em torno dos transexuais. A legislação portuguesa tem evoluído de forma positiva mas ainda há muita confusão na cabeça das pessoas, que associam a transexualidade a "travestis" ou mesmo a homossexuais.

Não é nada disso, e o exemplo de Caitlyn Jenner, espera a comunidade transexual, pode ser um momento decisivo na mudança de mentalidades.

"É absolutamente importante o papel transformador da sociedade em geral que a Caitlyn pode vir a desencadear", confirma à Blasting News Marta Ramos, coordenadora de projectos da associação ILGA Portugal, sublinhando no entanto que este não é o primeiro caso de alto impacto. "Chaz Bono, filho da cantora Cher, também permitiu que o seu processo de transição fosse filmado e exibido enquanto documentário quer no canal da Oprah Winfrey quer no Festival de Cinema de Sundance", refere, acrescentando o documentário da apresentadora trans Laverne Cox. "Todas estas iniciativas trazem visibilidade e contribuem para a desmistificação de alguns preconceitos e estigmas sobre as pessoas trans."

Alex Pacheco, da direcção da rede Ex Aequo - associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, trans, intersexo e apoiantes, tem uma posição similar. "O exemplo da Caitlyn Jenner pode ser inspirador para os jovens trans, sem dúvida. É sempre óptimo para um jovem ter algum tipo de "role model" de pessoas com sucesso com as quais se possam identificar", afirma à Blasting News, destacando que este tipo de "modelos a seguir" ainda são escassos para os jovens trans.

Mas que dizer da forma como Caitlyn optou por se assumir, sob os holofotes mediáticos e com um reality show? A Ex Aequo não critica. "Acreditamos que cada pessoa deve ser livre de viver a sua vida da forma que desejar", opina Alex Pacheco. "É fantástico ver uma pessoa trans a falar por ela própria, sem intervenção de médicos, psicólogos ou de outras pessoas que tentem comunicar o caso de acordo com o seu filtro pessoal, e que pode não corresponder à realidade da pessoa trans."

A ILGA acrescenta que "os meios de comunicação social têm um papel absolutamente fundamental na transmissão de informação correcta e apropriada" e que é crucial que utilizem os termos certos. "Por exemplo, que não se refiram à Caitlyn e a outras pessoas trans através do uso de pronomes contrários à sua identidade de género ou que, tratando-se de figuras públicas como é o caso da Caitlyn, estejam constantemente a fazer referência à vida da pessoa trans antes do processo de transição."

Nas redes sociais, a reacção foi muito positiva. Nos sites portugueses que têm dado notícias relacionadas, não se notam muitas discussões acesas nas caixas de comentários, como é comum em temas controversos; apesar disso, há quem critique a mudança e escreva que "O mundo está a ficar transexual", "Tudo nele é falso", ou lhe chame "degenerado." No Facebook, algumas pessoas questionaram a veracidade de todo o processo, sugerindo que se trata de um golpe de publicidade para "vender" um novo reality show - posição que não ajuda a causa dos transexuais e que seria, de facto, uma estratégia de marketing bastante bizarra.

"A decisão de exposição mediática e de partilha com milhares de outras pessoas de um processo tão íntimo como é o da construção identitária cabe apenas à própria pessoa e não a terceiros", sublinha Marta Ramos, da ILGA.

Lara Crespo, uma mulher transexual portuguesa de 43 anos, acrescenta: "As pessoas vêem uma mulher linda, com poder, com coragem de se assumir com a idade que ela já tem e apercebem-se que não é um 'capricho' ou uma 'doença'", referindo-se ao facto de a transexualidade ainda ser tratada por muitos como uma patologia. "Este passo de Caitlyn Jenner pode ser muito importante, mesmo num país pequeno e de mentes tacanhas como Portugal." E deixa uma nota curiosa: "as mulheres transexuais são sempre muito mais discriminadas que os homens transexuais." #LGBT