Criada em Julho de 1995, a Raspadinha, então conhecida como Lotaria Instantânea, nasceu com o propósito de ampliar o financiamento das áreas de apoio e actuação social a crianças e jovens em risco. Hoje, decorridas duas décadas, este é, sem dúvida alguma, um caso de sucesso nos #Jogos sociais do Estado, superando os objectivos traçados inicialmente com particular atenção nos domínios da saúde, solidariedade social, desporto e cultura. “A Raspadinha permitiu, desde o seu lançamento e até ao primeiro semestre deste ano, financiar os seus beneficiários em cerca de 704 milhões de euros”, disse fonte da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em declarações oficiais à Blasting News.

Há quem jogue por diversão ou pelo dinheiro fácil. Mas pode falar-se em casos concretos de pessoas que perderam o controlo? De acordo com esta mesma fonte, “importa esclarecer que, em todos os tipos de jogos a dinheiro, existe uma forte correlação entre payout (montante disponível para prémios) e frequência de jogo, assente no princípio de que jogos com um montante elevado para prémios, em que o apostador é frequentemente contemplado com o ganho de prémios (ex.: jogos de casino), aumentam significativamente a sua predisposição para voltar a apostar”. Contudo, este fenómeno não se assiste em jogos de reduzido “payout”, uma vez que sendo a aposta mais reduzida, o número de prémios é igualmente reduzido.

Se, por um lado, há quem defenda que a Raspadinha, em tempos de crise, veio ajudar a repor as finanças dos lares portugueses, por outro lado, há vozes que alertam para a falta de controlo que poderá ser uma ameaça. De acordo com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, este contexto global de contracção económica nacional, alterou o perfil e os níveis de consumo das famílias portuguesas, “revelando um actual cenário de consumo seguramente mais ponderado por parte das mesmas”, acrescentando que “o fenómeno contrário seria, a nosso entender, naturalmente preocupante”.

No que se refere aos jogos sociais do Estado, as vendas brutas cresceram nos últimos anos, assistindo-se ao chamado “efeito de substituição”, ou seja, há “uma maior concentração das despesas das famílias portuguesas na oferta legal disponível de jogo a dinheiro”.

“A maioria dos portugueses não é viciada”

A Blasting News quis ainda ouvir a opinião de uma especialista em finanças pessoais. Susana Albuquerque, Secretária-Geral e Coordenadora de Educação Financeira da ASFAC (Associação de Sociedades Financeiras para Aquisições a Crédito), acredita que, como qualquer outro jogo que envolva dinheiro, se não houver controlo, a Raspadinha pode ser uma ameaça à estabilidade financeira. No entanto, “estamos a falar de casos extremos, pelo que não considero que haja motivos para preocupações. Quanto ao facto de ajudar alguns lares portugueses, pode tê-lo feito em alguns casos, naqueles que tiveram a sorte de receber bons prémios, mas, mais uma vez, estamos a falar de jogos de sorte e azar, em que a família se apostar tem de o fazer dentro das suas limitações financeiras, não colocando em causa a gestão do orçamento”, afirmou.

A verdade é que a Raspadinha é a “rainha” dos jogos a dinheiro, sendo que, de acordo com estudos recentemente divulgados, 43,6% dos portugueses aposta. Susana Albuquerque admite que, naturalmente, poderá existir um caso ou outro de vício que deverá ser acompanhado por ajudas especializadas, mas não podemos generalizar. “A maioria dos portugueses não é viciada, jogando de acordo com as suas possibilidades, ou seja, investindo uma pequena parcela do seu orçamento na esperança de um dia ser premiado”, concluiu a especialista.