Não podem despedir-se porque sabem que há contas para pagar, bocas para alimentar e filhos para sustentar. Em Portugal, são muitos os trabalhadores que vivem “amordaçados” pela toxicidade dos chefes, que de líderes nada têm, sendo abonados em mediocridade.

Por ocasião do Dia Internacional do Trabalho Digno - assinalado a 7 de outubro - a Blasting News falou com uma vítima de #Assédio Moral pelo superior hierárquico. Maria Portugal (nome fictício) foi, durante 10 anos, técnica administrativa numa empresa privada. Levantar-se de manhã para ir trabalhar era uma missão olímpica, que só ultrapassava mantendo o nervo e o foco.

Na hierarquia das organizações há todo o tipo de pessoas: das inspiradoras às incompetentes, das transparentes às manipuladoras, das pacíficas às abrasivas, das diplomatas às intriguistas.

O tempo passado no local do #trabalho conta mais horas do que o tempo passado em casa. A gestão deste período pode tornar-se asfixiante, quando se tem que lidar com chefias disfuncionais.

Especialista em Direito Laboral, Sérgio Ribeiro afirma que “o facto de uma chefia tentar barrar as oportunidades para o trabalho produtivo de um colaborador é considerado assédio moral ou mobbing”, esclarecendo que, em termos práticos “significa que há uma conduta abusiva, manifestada por comportamento ou palavras, que atentam contra a dignidade do trabalhador. Esta pressão psicológica exercida no colaborador tem como objetivo claro afastá-lo”, sublinha.

Sérgio Ribeiro aponta algumas atitudes que disparam o temperamento tóxico dos chefes: “Discordar de uma ideia, tomar uma posição contrária ou defender direitos provoca ataques diretos ao colaborador, ou então ações silenciosas na conceção de um despedimento.”

Maria Portugal conta que hoje está longe dessa relidade. “Saí como quis e agora tenho um novo desafio.” Maria descreve a antiga chefia como fraca em liderança. “Não motivava, explorava e fraturava a equipa. Passava ainda a maior parte do tempo a conspirar e a rotular de incompetentes outros departamentos e chefias da empresa.”

Joana Oliveira, psicóloga, identificou à Blasting News dois tipos de pessoas tóxicas a arruinar carreiras: as que berram e as silenciosas. “Há uma casta de chefes que usa o poder elevando a voz e há os que, parecendo polidos e impecáveis, agem ardilosamente em benefício próprio.”

A especialista sublinha ainda que existem colaboradores com uma arte incrível para resistir em ambientes de adversidade: “Já vi estas pessoas a funcionar em realidades muito adversas e serem sempre capazes de manter a sobriedade e responder com tranquilidade, neutralizando grande parte da toxicidade vinda da chefia.”

Como antídoto, Maria Portugal admite que adoptou a postura resiliente “polida e afirmativa”, cumprindo orientações de forma a não se gerarem equívocos e mantendo alguma distância. “No meu caso, a pessoa em hierarquia superior era ardilosa e todo o cuidado era pouco. Sabia-o porque tinha assistido a outros despedimentos com interferência dela”, revela.

Na análise de Joana Oliveira, “por detrás de uma chefia tóxica está normalmente uma personalidade com alguma perturbação ou frustração a nível pessoal que a faz viver para o trabalho e jogar à defesa com medo de o perder.”

Para Sérgio Ribeiro, “se existissem mais denúncias, poder-se-ia constatar que são imensos os chefes manipuladores e erosivos que ofuscam competências de bons profissionais. Em vez de multiplicarem talentos, enterram-nos mas usam as ideias para se autopromover.”

Modificar comportamentos agrestes não é impossível. “Deve sempre denunciar-se, comunicar-se”, defendem ambos os especialistas.

O acesso a um trabalho que dignifique e não explore, com uma remuneração justa e equitativa é um direito que assiste a qualquer trabalhador. A Organização Internacional do Trabalho debate-se por conseguir um trabalho digno como critério fundamental para uma sociedade digna, mais justa e humana. #Direitos