Esta semana foi notícia discreta o facto de a Índia ter colocado uma sonda na órbita do planeta Marte. Foi a quarta agência espacial a consegui-lo (depois de Estados Unidos, União Soviética e União Europeia), o primeiro país asiático e, principalmente, o primeiro a fazê-lo à primeira tentativa. Mais do que isso, o projecto Mangalayaan custou apenas 74 milhões de dólares, ou seja, foi incrivelmente barato. Basta pensar que o projecto American Maven, uma nova sonda americana em Marte que também lá chegou esta semana, custou 671 milhões de dólares, cerca de 9 vezes mais. E que, à cotação actual, custou 57 milhões de euros - ou seja, pouco mais de metade do que o Real Madrid pagou por Cristiano Ronaldo.

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A notícia merece mais destaque - tal como tudo o que vem da Índia.

A corrida espacial continua a ser uma montra de prestígio científico e político, mais do que uma fonte de lucro imediato. O facto de os projectos espaciais além-atmosfera não serem lucrativos a curto prazo tem contribuído bastante para a sua diluição no tempo, agora que passam 45 anos sobre a chegada à Lua. É preciso não esquecer que, pesem as considerações científicas e religiosas, os Descobrimentos Portugueses começaram essencialmente pela procura de riquezas - e a viagem de Vasco da Gama à Índia trouxe uma carga de mercadorias que pagou 60 vezes o seu custo.

Mas já lá vão os tempos do duopólio EUA-URSS. As novas potências têm-se juntado, passo a passo, a esta exploração. Claro que aqueles que consideram que a chegada á Lua foi uma encenação americana num estúdio de TV certamente acreditarão também que é mentira o facto de os indianos terem enviado uma sonda para Marte.

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(A não ser que a ideia seja apenas ser contra os Estados Unidos.) Para os outros, que usam o Google Maps e acreditam que o Homem utiliza o Espaço no seu dia-a-dia, a Índia aparece agora com uma imagem diferente.

Membro dos BRICS e potência nuclear, a Índia segue, discretamente, a tradição de Mahatma Gandhi. Não se vê os indianos empenhados na construção de novos mísseis balísticos, apesar da tensão com o vizinho (também nuclear) Paquistão. Não se ouve que os indianos agridam as Ucrânias à sua volta, nem que queiram construir democracias à bomba no Médio Oriente. Segundo país mais populoso do mundo, país cheio de contrastes sociais e culturais, a Índia tem um cluster tecnológico muito importante - sendo Bangalore, cidade no sul do país, o seu centro. O baixo custo da mão-de-obra e a produção própria foram, claro, um dos grandes motivos para o baixo custo do projecto espacial indiano. É frequente que os melhores alunos dos cursos tecnológicos dos melhores cursos superiores do mundo - habitualmente em universidades americanas .

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venham da Índia.

O facto de terem conseguido colocar a sonda à primeira tentativa explica-se pelo fenómeno "standing on the shoulders of giants" (estar aos ombros de gigantes): da mesma forma, foi mais fácil para ingleses e espanhóis navegarem para a Ásia depois de Portugal ter feito o trabalho mais difícil. Mas isso não retira mérito à eficácia desta potência do século XXI - uma potência que, pela forma silenciosa, discreta e pacifista como se move na cena internacional, merece a nossa simpatia. Trata-se, afinal, da maior democracia do mundo, e da grande esperança das democracias para contrabalançarem o autoritarismo russo e chinês.