Já dizia Lavoisier que "nada se perde, tudo se transforma". Exemplo disso é o recente lançamento do Bio-Bus, no Reino Unido. Este autocarro de 40 lugares movido a gás biometano, produzido através de dejectos humanos e restos alimentares, já está em circulação e tem andamento para cerca de 300 quilómetros. Diz a BBC que a sua fonte de energia é o equivalente ao lixo produzido anualmente por cinco pessoas, incluindo as excreções que normalmente iriam para o esgoto. O combustível para o "autocarro cocó" - como foi carinhosamente apelidado pelos britânicos - é criado pela GENeco através de um processo chamado "digestão anaeróbia". Esta empresa ligada à Wessex Water, no Reino Unido, tem capacidade para produzir anualmente, na estação de tratamento de Avonmouth, 17 milhões de metros cúbicos de biometano, o suficiente para abastecer de energia cerca de 8300 habitações.

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Combustível amigo do ambiente

Se resíduos de esgoto são normalmente sinónimo de mau cheiro, no caso do biometano esse problema foi resolvido através de um processo de remoção de impurezas do gás. Além disso, este combustível permite até melhorar a qualidade do ar das cidades, já que as suas emissões de dióxido de carbono representam uma redução de cerca de 30% por comparação aos combustíveis fósseis actualmente usados na generalidade dos veículos. O director-geral da GENeco, citado pela BBC, acredita que veículos movidos a gás têm "um papel importante na melhoria da qualidade do ar nas cidades britânicas". "Mas o Bio-Bus vai mais além e na realidade é abastecido pelas pessoas que vivem na área [onde o autocarro circula], incluindo possivelmente pelos utilizadores do próprio autocarro", sublinhou Mohammed Saddiq.

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Nada impede, por isso, que no futuro os resíduos sejam uma forma de pagamento, caso o gás biometano seja uma fonte de energia comum. Utopias à parte, a reutilização de lixo é benéfica em termos de preservação ambiental, já que também faz uso do desperdício alimentar que normalmente iria parar a aterros sanitários.

A energia histórica do futuro

Há referências a biogás, provavelmente utilizado de forma menos aperfeiçoada, na Assíria, no século 10 antes de Cristo (para aquecer a água do banho), e na Pérsia, no século XVI. As primeiras experiências com biogás usando um método científico mais semelhante ao nosso datam de 1808. Sabe-se ainda que os romanos usavam urina para curtir o couro ou lavar a lã e que, na Europa medieval, a urina era usada para lavar a roupa e como adubo, através de métodos que se foram modernizando. Na altura, chegou-se à conclusão de que um adulto produzia anualmente urina suficiente para produzir os nutrientes necessários para cultivar 250 quilos de cereais (o suficiente para alimentar esse adulto durante um ano).

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Hoje em dia, cientistas do Laboratório de Robótica de Bristol já conseguiram carregar um telemóvel com energia produzida através de conversão de urina em electricidade através da digestão anaeróbia. Já houve também experiências bem-sucedidas neste campo para gerar hidrogénio e purificar água. As centrais modernas de tratamento de esgoto são hoje, paradoxalmente, fonte de potencial energia mais limpa do que aquela utilizada actualmente. O biogás pode ser usado directamente, transformado em biometano ou utilizado em centrais para produzir electricidade. Com cada adulto pode produzir cerca de 30 quilos de dejectos anualmente e é seguro dizer que, enquanto existirem humanos, existirá energia suficiente para os sustentar. #Inovação #Curiosidades