Alexander Grothendieck, considerado um dos maiores matemáticos do século XX e mesmo da História da Matemática, faleceu esta semana, aos 86 anos de idade. Grothendieck ficou conhecido não apenas pela sua investigação revolucionária, em especial nas áreas da Geometria e da Álgebra, mas também pelo seu activismo político e, posteriormente, pela sua vida de reclusão. Tendo vivido e ensinado em França, Grothendieck adoptou uma postura de contestação política e social, de cariz pacifista e ambientalista, ao longo dos anos 60. Mais tarde, em 1988, abandonou a vida social e passou a viver em isolamento numa aldeia nos Pirenéus.

Os trabalhos do matemático francês foram especialmente importantes no campo da geometria algébrica, em especial com as suas obras "Éléments de géométrie algébrique" e o "Séminaire de géométrie algébrique". O filósofo e escritor Jean-Paul Sartre veio a sintetizar mais tarde um dos ensinamentos do matemático, reconhecendo que, "como Grothendieck diz, é mais importante a forma como os elementos se relacionam do que saber do que são feitos." A teoria dos esquemas, a topologia de Grothendieck e a teoria dos números foram áreas revolucionadas ou criadas pelo matemático, que levaram a disciplina a um maior grau de abstracção e continuam a fascinar a comunidade científica - e com aplicações práticas, nomeadamente em comunicações via satélite.

Contudo, o mundo reconhece mais Grothendieck pela sua biografia do que pela extensão do seu trabalho, e a generalidade da imprensa internacional transmitiu esta notícia dando mais ênfase ao seu percurso de vida que à sua investigação. Grothendieck nasceu na Alemanha em 1928, filho de um judeu russo e de uma jornalsta de causas (segundo o Público), Hanka Grothendieck. Em 1939, Alexander partiu para França, onde já estavam os seus pais; o seu pai viria a ser deportado para Auschwitz. Os registos de nascimento de Grothendieck foram destruídos e isto fez com que se tornasse apátrida, e assim permaneceu muitos anos; não quis pedir a nacionalidade francesa para não ser alistado para a guerra na Argélia.

Grothendieck entrou na Universidade de Montpellier em 1944 e deixou os professores impressionados com as suas capacidades. Mais tarde leccionou no Instituto de Altos Estudos Científicos (IHES), tendo sido o criador da reputação de excelência da instituição. O matemático recusou o prémio Fields em 1966, considerado o prémio Nobel da Matemática, e pouco depois abandonou o IHES por ser parcialmente financiado pelo Ministério da Defesa francês. Passou depois pela Universidade de Montpellier antes de deixar a vida académica e partir para os Pirenéus, não sem antes recusar um prémio de 450.000 euros atribuído pela Real Academia de Ciência da Suécia, por achar suficiente o seu salário de professor. Grothendieck proibiu também a Universidade de Montpellier de divulgar parte do seu trabalho de investigação, especulando-se que terá desenvolvido mais trabalho durante o seu quarto de século de isolamento. Faleceu no hospital da pequena vila de Saint-Girons, nos Pirenéus franceses.