O mês de Agosto de 1988 viu duas tragédias a abater-se sobre o país em dois dias consecutivos. No dia 25 foi o Chiado que ardeu, transformando para sempre a velha Lisboa comercial, cobrando 2 vidas, e abrindo caminho a uma reconstrução lenta mas bem sucedida. E no dia 26 foi Carlos Paião, um dos cantores e compositores mais talentosos desta década, a falecer num acidente rodoviário. Numa deslocação para mais uma actuação, e num tempo em que a segurança rodoviária - quer ao nível de veículos, de estradas ou de consciência dos condutores - era bem menor do que hoje.

Carlos Paião era, em primeiro lugar, um grande compositor. Pelas músicas que ele próprio celebrizou enquanto cantor, e que se mantêm actuais. Como Playback, com a qual venceu o Festival RTP da Canção - uma música divertidamente crítica sobre o modo de trabalho de muitos músicos. "Pó de Arroz", "Vinho do Porto" (num dueto com a malograda Cândida Branca Flor) e "Cinderela", uma música facilmente cantarolada e repetida pelas crianças de hoje, onde quer que haja um Youtube. 

Mas também pelas músicas que compôs para outros, nomeadamente para Herman José, com o "Serafim Saudade". É o próprio Herman que sublinha (numa entrevista televisiva, há algum tempo) a versatilidade de Carlos Paião enquanto compositor e a sua capacidade de compôr em qualquer estilo. A Canção do Beijinho, ainda segundo Herman, pela conjugação da letra com a música, é um antepassado das letras de rap e hip hop praticado actualmente.

Além do cantor e do compositor, o ser humano, reconhecido por todos os que com ele conviveram e trabalharam. Médico de formação, terá afirmado que preferia ser um bom músico a ser um mau médico. Em boa hora seguiu o seu sonho e se atirou de cabeça para a música. O seu legado enriqueceu a cultura portuguesa e enriqueceu-nos a todos.

E quanto ao boato em torno do seu falecimento, e de um eventual despertar de um estado de coma não detectado pelos médicos, não passa disso mesmo: um boato. A viúva de Carlos Paião confirmou que o cantor foi autopsiado. Talvez o povo quisesse apenas acreditar, a todo o custo, que Carlos Paião teria sobrevivido.

Para podermos reviver Carlos Paião, faça o leitor a experiência: apresente, com a ajuda do Youtube, algumas músicas de Carlos Paião - a Cinderela, o Playback, o Serafim Saudade, o Bamos Lá Cambada -  a crianças em idade escolar.

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Verá o resultado - e será a melhor forma de homenagear e agradecer o trabalho que Paião nos deixou. #Entretenimento #Famosos