Estatelado no meu sofá, delirei. Com esta idade, não me lembro de tarde igual. Vi #Televisão, aliás olhei para a televisão, durante horas, sobre o regaço um livro, dos abusos de Lara, não a outra mas do Doutor Jivago. Lembrei-me de Mário Castrim, aliás Manuel Nunes da Fonseca, que como sabem era uma aveirense, nascido em Ílhavo, pela segunda década do século vinte. Lembrei-me dele e pensei, se ainda cá estivesses entre nós, só te restava munir-te de caçadeira e atestar, mas atestar forte nesta caixa de surpresas. No teu tempo eras acintoso, se estivesses ainda vivo provavelmente também te irias referir ao cinto, mas para ferrar umas bordoadas nestes estupores.

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Para ti, Mário, havia a coltura (de coldre) e a cultura. Hoje não havendo a cultura, muito menos de produtos agrícolas, porque o que é rentável são os subsídios e não o cultivo das couves. Também havia censura que não te permitia dizeres o que pensavas, mas somente aquilo que te deixavam escrever. Hoje, também temos televisão e a cores. Gostei imenso desta tarde de televisão. A partir de uma festança lá para a Beira Interior em terras do Dão, ouço com frequência "que grande febra", de comer está claro. Trata-se da festa das febras.

O seu marido tem cá um chouriço, se tem, mede oitenta centímetros, mas não é muito grosso, porque teria mais febra e pesava mais e a Mónica tem uma boca grande dizia o colega. Isto em directo a partir duma banca de enchidos. Encher chouriços é isto, falar, falar, e não dizer nada.

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No palco uma brilhante, linda por sinal, acordeonista, afirmando em público que gostava de apanhar no pacote. Ó Mário, então se cá estivesses não irias imediatamente a Mangualde dar umas vergastadas nesta gente? Mais: ela também gostava imenso de pegar no pincel.

Tudo dançava e ria, cada um agarrado à sua febra. Os artistas devidamente acompanhados de brilhantes bailarinas, de celulite e gestos sensuais, talvez saídas das escolas de dança da Gulbenkian, e quase vestidas. Dois momentos altos: o Marante do Diapasão lá foi cantando que um homem trabalha uma vida inteira para… e, um produtor de vinho, publicitou o seu vinho biológico. O que são isso de produtos biológicos, principalmente o vinho e o Mildio, como o abate, de caçadeira? Moda dos produtos biológicos, se pega, teremos de passar a usar papel higiénico de origem biológica.

As canções que ouvi tinham letras excelentes, talvez de Adriano, Alegre, Pessoa, como por exemplo "entrava no universo de teu olhar", alguém dizia, esse canta, ou berra, porque é filho de… não de fdp mas de mãe, verdadeira e também artista.

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Outra "a primeira vez que te beijei"... Bem sempre é mais fixe que gostar de apanhar no pacote.

Do público, sai um sincero feioso que corre atrás do primeiro micro que encontra e despeja muitos beijos e abraços para os filhos que foram para Moçambique arranjar trabalho. Então em Portugal não se trabalha? Mentiroso, ele ou o PM, porque a taxa de desemprego caiu a pique. Na véspera de eleições não vai haver desemprego, por isso mande para cá os seus filhos, Moçambique só é bom pelo sol e pelo marisco, cá temos coelho, bravo.

Para rematar: deixem fugir, ou mugir o bicho, não percebi bem, mas o povão divertia-se, até dançava ao som da fuga do bicho.

Tarde bem passada, estivesse eu de boa saúde e não teria esta oportunidade suprema de me cultivar tanto. Volta Mário Castrim, porque teremos de fugir para a ilha.