Pensando no caminho evolutivo humano e no contexto dos microrganismos, um novo estudo publicado na renomada revista Cell sugere que, assim como nossas células, também as doenças evoluíram connosco. Isso pode começar a explicar, por exemplo, o facto de as doenças que existem hoje não terem existido antigamente e outras que nalguns momentos foram grandes epidemias, hoje serem irrelevantes.

Varíola, malária ou tuberculose são exemplos de doenças infecciosas que podem ser disseminadas de acordo com a migração de seres infectados.

O estudo, intitulado "Impacto das Migrações Históricas e Processos Evolucionários na Imunidade Humana", foi liderado por Jorge Domínguez-Andrés em colaboração com Mihai G.

Netea.

O caminho da evolução

Inúmeras teorias indicam que o caminho do ser humano até chegar ao ponto atual se deu juntamente com o dos microrganismos que habitam no nosso corpo, os quais podem chegar a uma quantidade 3 vezes maior que as próprias células humanas. Ou seja, vivem em nós muito mais células não humanas do que células nossas. Dentro dessas células não humanas, encontramos fungos, bactérias e outros, que podem ser benéficos ou interessantes para o nosso desempenho, podem cooperar com a nossa biologia ou podem agir contrariamente, causando doenças.

As teorias evolutivas dizem-nos que a genética humana se altera de acordo com a seleção natural que determinada população tem. Isto é, supondo que nalgum momento do nosso caminho ocorra uma epidemia de um vírus desconhecido, onde toda a população da Terra é afetada e dois terços desta população morra, a nova população a surgir a partir desse evento terá uma diferenciação genética da população anterior no que se refer à resistência a esse vírus.

Sendo assim, a nova população segue um caminho evolutivo diferente do que teria se não houvesse a epidemia do vírus.

Porém, existem doenças que não necessariamente extinguem uma população. É o caso da malária, por exemplo, em que devido à exposição de algumas regiões ao vírus, as estruturas genéticas se moldaram diferentemente de populações que nunca tiveram esse contacto.

De acordo com o estudo, o caminho que a evolução humana teve e está a ter em determinadas regiões da África onde a ocorrência da malária é presente há muito tempo tornou as pessoas muito mais resistentes geneticamente ao vírus, podendo na grande maioria dos casos conviver com a doença sem que haja maiores problemas.

Esse é um caso muito interessante do quanto as doenças caminham connosco e nos influenciam.

O contacto e a imunologia

Enquanto diferentes espécies de homo se cruzavam, como o caso dos Neandertais com outras espécies consideradas mais arcaicas, isso fez com que a resposta genética ao cruzamento fosse vantajosa em relação ao genoma e a qualidade imune das populações seguintes.

Ainda assim, o contexto imunológico dos seres humanos deu-se de forma diferente entre as populações, que iniciaram a colonização de outras áreas fora do continente Africano há cerca de 2 milhões de anos. Acredita-se que populações se foram estabelecendo em diferentes regiões como a Ásia, Europa, Oceania, e as Américas. Como essas populações evoluíram em ambientes e patógenos diferentes, acredita-se que os seus sistemas imunes se tenham desenvolvido de diferentes maneiras.

Isso explicaria de maneira genérica o facto de uma pessoa nascida na África, por exemplo, ser resistente a malária.

No caso da primeira onda migratória ocorrida nas Américas, acredita-se que populações asiáticas tenham atravessado o estreito de Bering no extremo norte do continente americano, há cerca de 20 mil anos, onde se disseminaram para o resto do continente até chegar à América do Sul.

Muito tempo depois disso, há 500 anos, os primeiros Europeus chegaram à América e trouxeram consigo uma série de condições patológicas diferentes daquelas enfrentadas até então pelos indígenas americanos. Sendo assim, a velocidade com que os patógenos se espalharam entre os nativos foi avassaladora, levando quase à extinção dessas populações.

Mais uma vez, após o evento, as taxas por morte daqueles patógenos entre as gerações seguintes foram muito baixas, principalmente devido a adaptação genética.

Atualmente, as doenças autoimunes são motivo de preocupação por grande parte da população que sofre com vários contextos dos quais antes não se falava, da doença de Crohn até diabetes. Segundo o estudo, “há evidências crescentes de que o surgimento de doenças autoimunes está associado à presença de vários alelos relacionados com o sistema imunológico que foram selecionados por processos evolutivos.”

Ainda é difícil encontrar uma resposta para o tempo que cada resposta genética leva para se impor dentro de uma população e o quanto realmente a exposição a determinados patógenos pode ser prejudicial ao ser humano.

Agora, o que se sabe é que as doenças irão continuar a caminhar com a raça humana, pelo menos enquanto ela existir.

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