O risco é subtil, mas assusta. Uma pessoa nova é um risco novo, uma oportunidade para novas oportunidades - e para novos erros, claro. Cada pessoa é no mínimo um motivo para amar. Cada pessoa é no mínimo um motivo: aproveita-o.

Foi com este pensamento que ele se aproximou da mulher que queria levar para o altar. Antes, contudo, sabia que a teria de levar para outros lugares. Quem sabe um café primeiro, quem sabe depois um passeio à beira-mar, quem sabe depois um jantar, quem sabe depois um jantar mais estendido no tempo (e quem sabe na cama)?

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Para já só tinha de perceber como lhe dizer que a queria sem lhe dizer que a queria. O mais curioso na sinceridade é que raramente pode ir à frente de tudo o resto. Antes da sinceridade vem a possibilidade: o que pode dizer-se. A sinceridade chega mais tarde, bem mais tarde, quando a sedução se faz por outros caminhos. Antes é urgente fascinar: lançar a âncora. E as âncoras raramente são sinceras. Nunca ninguém que quer amar alguém que não conhece diz "olá, eu sou o Pedro e quero amar-te".

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E seria tão mais simples. Mas as pessoas perdem tempo com a sedução para o amor - talvez porque a sedução para o amor seja uma das mais encantadoras partes do amor.

Há tantos casais que se apaixonaram pela sedução e não por quem os seduziu.

Então aproximou-se, quis dizer alguma coisa mas a voz parou, ela também parou, ficaram alguns segundos (não devem ter sido muitos, mas para ele foi uma vida inteira a olhá-la e a guardá-la para mais tarde recordar, sabe-se lá se teria oportunidade de a ver de novo) suspensos no tempo, um no outro, na verdade, até que ela mesmo sem falar disse "quero", ele sem falar disse "vamos tentar" - e quando as palavras finalmente chegaram só disseram as trivialidades que sempre se dizem: "boa tarde, não sou de cá e gostaria de saber onde fica a praça de tal", "boa tarde, a praça de tal fica na rua de tal junto à loja de tal", "e isso é longe ou posso ir a pé", "é mesmo aqui ao lado", "que bom", "eu por acaso estou mesmo a caminho dessa zona e posso acompanhá-lo lá", "isso seria excelente, obrigado", "ora essa, ora essa", "Pedro", "Bárbara", e o resto ficará para a história, a deles, claro está, que esta nossa acabou agora mesmo, peço desculpa, e até à próxima, esperemos que por dentro de outro amor qualquer.

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