É preta uma das paredes do quarto. A mesma cor dos tapetes, das flores de madeira na taça de cristal sobre a cómoda, dos cortinados espessos que quebram a luz e o olhar dos vizinhos do prédio em frente.  Apesar dos vidros espelhados, sempre tiveste medo que os seus olhares entrassem no quarto e nos encontrassem como abelhas nuas num torvelinho do mel.

A minha mãe odeia o preto. Exclamou: «o teu marido é louco, este quarto parece uma funerária.» E repetiu, e repetiu isso mil vezes, uma e outra vez, até à exaustão.

Confesso que ao princípio também não apreciei esta negritude toda. Ainda ofereci resistência a comprar aquele edredão totalmente preto, mas acabaste por escolher um outro com florais brancos e prateados.

Estava em promoção e eu, uma vez mais, cedi. Afinal, o importante era ter-te em mim, dentro de mim, e não a cor da roupa em que nos envolvia.

«Escolho o preto para realçar o teu corpo branco», dizias. E eu acreditava - porque acreditei sempre em todas as tuas palavras. Limitei-me por isso a acender as velas aromáticas naqueles suportes pretos que comprámos um dia na loja do chinês, lembras-te? Eram redondos como uma bola, tinham um encaixe para a vela no cimo e, em redor, umas flores gravadas com incrustações em madrepérola; por baixo tinham um pequeno prato decorado com pedrinhas do rio. Já nem te deves lembrar. 

Mas devo confessar que tinhas razão. A primeira vez que fizemos amor naquele quarto negro, senti como se tudo tivesse desaparecido em nosso redor e apenas restássemos nós a desfolhar a noite dos nossos corpos.

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Não havia mobílias, nem roupas, nem bibelôs a distrair os nossos olhos. Nada. Apenas uma tela negra como uma boca de palco, em que tudo tinha desaparecido para sobressaírem os nossos corpos brancos como actores principais. Tudo o resto era negro e ausência, e tu amaste o meu corpo de mulher como se flutuássemos no universo, onde as luzes agitadas das velas simulavam o brilho das estrelas e os espelhos nos davam a ilusão de infinito.

Nunca concordei muito com as tuas escolhas, mas sempre acabei por me sentir feliz em confiar em ti. Mesmo quando escolheste todas as outras coisas da casa, a mobília, os candeeiros, os sofás, as serigrafias de pintores desconhecidos para as paredes, o bengaleiro e o tapete persa do vestíbulo, o relógio da sala, até o espanador do pó, as cabeças de cavalo que seguram os Livros na estante, as canecas com gatinhos, os napperons do móvel da entrada, os ímanes coloridos das portas do frigorífico.

Eu já tinha um jogo de pratos – oferta da minha mãe. Mas implicaste com a cor e acabámos por comprar um conjunto novo.

Depois veio um faqueiro a condizer, um serviço de copos e uma toalha de linho. Das ofertas de minha mãe restaram apenas as plantas que logo murcharam, do meu pai apenas as suas garrafas de vinho que bebeste com os amigos; de mim, para além de mim, nunca aceitaste nada. No nosso casamento foste tu quem sempre escolheu tudo sozinho, escolheste até a tua amante e o momento mais oportuno de saíres de casa para víveres com ela - essa p***!

Tu partiste e eu fiquei aqui, com os meus olhos a cruzarem-se diariamente com as coisas que escolheste para ti a pensar em nós dois. Não sabes o que me dói recordar-te em tudo o que toco, em tudo o que vejo, e saber que agora não estás mais aqui. Queria ter dinheiro para remodelar a casa, vomitar tudo para a rua, mandar queimar o sofá onde fizemos amor – talvez sexo apenas -, escaqueirar com o serviço de loiças, pintar de novo as paredes. Hoje já não significas nada, absolutamente nada, o asco substituiu o amor que te tinha, mas irrita-me ter de recordar-te a cada coisa, a cada passo, como quem festeja um feriado nacional de quem toda a gente já esqueceu o significado.

Hoje a cama está fria. Deito-me e acordo sozinha neste quarto negro em que já fomos os actores principais numa peça de amantes. O preto é agora uma cor de solidão. Já não há velas a sugerir estrelas no universo, nem os espelhos dão a ilusão de infinito.