“Os velhos que se vão encher de moscas.”

Foi assim que José respondeu quando o seu colega de quarto lhe falou na espera que tivera de aguentar no supermercado: “Mais de dez minutos por causa de uma velha que queria ter um desconto qualquer que estava num catálogo qualquer que ela leu num café qualquer. Dez minutos, porra. E a malta ali a ferver, pá. E a fila sempre a aumentar.”

“E não lhe foste aos cornos?”

José gesticula, gesticula muito, muito mesmo. “Não, pá. Aguentei, tive de aguentar, eu e toda a gente. E o raio da velha sempre com mais perguntas, sempre de trombas, ainda por cima. Ali a dar uma seca descomunal à malta e sempre de trombas, como se a culpa ainda fosse nossa e ainda estivéssemos todos ali a fazer-lhe um favor.”

Os velhos são assim: o mundo está todo contra eles. E quando não está é porque está com pena deles.

Os velhos têm caruncho na alma, são rezingões. Queixam-se da passagem do tempo mas são eles que deixam que o tempo passe. O tempo passa-lhes por cima, é o que é. Não digerem o mundo; engolem-no. Pensam que já lhes resta pouco para viver e acabam por não viver a ponta de um corno. Os velhos metem-me nojo.”

José levanta-se, abre a janela, vai fumar um cigarro, pensativo, enquanto o seu colega de quarto continua a contar o que lhe aconteceu: “De maneira que a dada altura há um gajo qualquer que, de lá do fundo da fila, manda vir com a chata da velha. Parece que o supermercado parou nesse momento. Ela vira logo a cabeça e lança-lhe um olhar que o calou imediatamente. A ele e a toda a gente. Chiça, que medo. Até me arrepiei todo, chavalo.”

“Os velhos têm olhos velhos, olhos cansados. Os novos, esses, nunca se cansam pelos olhos.

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E sabes porquê? Porque não olham; sentem com os olhos. E é bem diferente, é mesmo o contrário, se queres que te diga. Olhar é o oposto de sentir com os olhos. Olhar é apenas ver o que está ali, o que qualquer um, até um animal, consegue ver: o sol é uma cena redonda que aquece e dá luz, o vento é um ar que passa por nós, um pássaro é uma criatura que voa; mas sentir com os olhos é outra coisa: o sol é o céu a sorrir, o vento é a maneira mais simples de provar o invisível, um pássaro é um poema com asas. Os jovens são esses gajos loucos que sentem com os olhos. Melhor ainda: os jovens são esses gajos estupidamente malucos que sentem. E é essa a maior das demências, não é? Sentir. Esta merda deste mundo parece que abomina quem sente, quem arrisca sentir e mostrar que sente. Que bosta de sentido faz isto, consegues saber? Devíamos todos ser jovens e dizer que sentimos e que precisamos e que falhamos e que somos insuficientes mas ao mesmo tempo completos. Somos todos insuficientes mas ao mesmo tempo completos.

Não nos falta nada por mais que nos falte tanta coisa. Os jovens vivem a presença; os velhos vivem a ausência.”

José acaba o cigarro, fecha a janela, estende-se na cama, olhos no tecto. O seu companheiro de quarto, pelo contrário, levanta-se e dirige-se para a porta.

“Os velhos que se vão encher de moscas.”, repete José, segundos antes de um grupo de colegas do lar entrar pelo quarto, com um bolo com setenta e cinco velas em cima, e começar a cantar-lhe os parabéns.