Kátia Guerreiro e Mísia são os destaques da segunda edição do Festival de Fado de Barcelona, que em 2018 volta à capital da Catalunha no fim de semana de 29 e 30 de setembro. O tema deste ano é “El Fado de Puertas Afuera”, ou seja, estará centrado no modo como o Fado tem sido difundido pelo o mundo ao longo do tempo.

O concerto de Kátia Guerreiro está marcado para as 20h30 de sábado na Sala Barts, um espaço de espetáculos situado a cerca de 500 metros do museu marítimo de Barcelona com 933 lugares com assento, podendo atingir 1500 com lugares em pé.

A fadista portuguesa irá apresentar novos temas do seu novo disco intitulado “Sempre” que saíu recentemente e foi produzido por José Mário Branco. No concerto também estarão presentes temas do seu último trabalho “Até ao fim” de 2014.

Exposição, cinema e conferência

Antes do momento principal de sábado, o primeiro dia do festival começa com uma exposição às 17h30 sobre “O Fado e a sua internacionalização”, organizada pelo o museu do Fado e a EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural). Esta exposição mostra os melhores momentos a artistas do Fado e a sua mediatização desde a década de 30 do século passado até aos dias de hoje. Posteriormente, às 18h00, será passado o filme “Carlos do Carmo, um Homem no Mundo” realizado por Ivan Dias e com a duração de 105 minutos. Estas duas atividades efetuam-se no museu marítimo de Barcelona

O segundo dia (domingo) inicia-se às 18h00 com uma conferência sobre a internacionalização do Fado e a sua oradora é Andreia Brito, doutorada em Arte e Património pelo Museu do Fado.

Os melhores vídeos do dia

Neste evento serão conhecidos os momentos e os artistas mais marcantes que contribuiram para a internacionalização do Fado de 1930 até hoje.

Um hora depois o público poderá assistir ao filme “Mariza nos palcos do mundo”, realizado por Ivan dias e com a duração de 60 minutos. Tal como acontece no dia anterior, estes dois eventos são realizados no museu marítimo. À noite, pelas 20h30, sobe ao palco da Sala Barts Mísia, que apresentará um novo espectáculo denominado “Pura Vida”. Ambos os concertos tem a duração de 90 minutos e o preço varia entre os 15 euros no Anfiteatro Lateral e os 30 euros na Plateia.

O Festival de Fado foi criado em 2011, no mesmo ano em que a UNESCO reconheceu este estilo musical como Património Mundial, e Madrid foi a primeira cidade a recebê-lo. Mais tarde difundiu-se por 8 cidades na Europa, América Latina e África: Sevilha, Barcelona, Buenos Aires, Bogotá, Santiago do Chile, São Paulo, Rio de Janeiro e Rabat.

Internacionalização do Fado ao longo do tempo

Falar de Fado é falar de Amália Rodrigues.

Ela foi a primeira embaixadora deste género musical e foi uma das figuras mais importantes no século XX para o reconhecimento internacional de Portugal. Cantou fados com letras escritas por Camões, José Régio, Ary dos Santos e David Mourão-Ferreira, entre outros. Amália foi uma referência na divulgação da cultura e língua portuguesa e influenciou vários artistas do país. Este aspeto tem contribuido para o sucesso atual dos nossos fadistas que são frequentemente solicitados a efetuar concertos em palcos de todos os continentes tanto em salas de espectáculos importantes como em festivais.

Quando o fado foi considerado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2011, o respeito e a admiração cresceu e começaram a surgir novas fadistas com novas ideias e uma abordagem diferente ao fado. Este fator tem tornado este estilo de música típico português mais versátil e cativante a mais pessoas. O Fado é um aspeto essencial na identidade e cultura portuguesa que revela uma base tradicional e tem sido renovada ao longo do tempo na sonoridade, nas letras e na forma como os artistas expressam os seus sentimentos.

Naturalmente a diáspora portuguesa aprecia bastante a presença de fadistas nos países que escolheram para viver, no entanto, há também uma forte presença em outros palcos onde os estrangeiros são a maioria. Há um grupo de pessoas que conhece as canções e segue a carreira de muitos fadistas e outros mostram curiosidade em conhecer este género musical. A barreira línguistica não é fator impeditivo para o Fado ser estimado nos outros países mostrando assim que a música é universal e outros aspetos como a voz e o modo de interpretar são mais importantes no momento de conquistar mais público. A mensagem, os sentimentos e as emoções são transmitidas ao público independentemente da sua língua materna.

A internacionalização dos artistas portugueses tem sido feita de forma independente e autónoma sem apoios do Estado. A maioria dos países europeus têm programas de apoio governamental para a produção musical, e em muitos casos tem contribuido para a expansão internacional da música nos seus mais diversos estilos desde o rock ao pop. No caso de Portugal, seria importante que houvesse esse apoio ao Fado, de modo a impulsionar ainda mais a transposição de fronteiras da música.

Duas gerações de fadistas

Muitos nomes se destacam atualmente, entre eles os dois que irão atuar na edição deste ano do Festival de Fado em Barcelona. A fadista de origem açoriana Kátia Guerreiro desde o início da sua carreira que é reconhecida como uma das melhores vozes neste estilo musical. Uma das suas caraterísticas é a riqueza lírica dos seus fados cujas letras foram escritas por autores como Sophia Mello Breyner e Fernando Pessoa. A cantora tem recebido diversos prémios, como a Comenda da Ordem do Dom Infante Henrique, entregue pelo o presidente da República que premeia personalidades que tiveram um papel relevante na expansão da cultura e história portuguesa. Em termos internacionais, recebeu a condecoração da Ordem das Artes e Letras pelo Governo Francês em 2013.

Destaque também para o interesse demonstrado por alguns canais estrangeiros, como o NHK do Japão, que se deslocou a Portugal com uma equipa de jornalistas e produziu um documentário de uma hora dedicado à sua vida e à sua carreira. O canal cultural francês TV Mezzo produziu um filme que lhe é inteiramente dedicado. Em 2004, Kátia Guerreiro realizou 10 concertos no Japão e 10 em França como consequência da realização do documentário e do filme referidos em cima.

Por seu lado, Mísia pertence a uma geração mais antiga de fadistas e já alcançou 27 anos de carreira, na qual editou 13 discos. A cantora foi pioneira de um novo Fado tipicamente português iniciado nos anos 90 onde o seu espírito livre pode libertar sensações artísticas intemporais expressas em diversas línguas. Outra característica de muitas das suas canções é o acompanhamento do piano e do violino que dão uma sonoridade peculiar às suas interpretações. Em 2004 recebeu do governo francês a medalha “Chevalier des Arts et des Lettres” e em 2011 foi condecorada com a Ordem das Artes e Letras de França como forma de homenagear uma artista com uma identidade própria e estilo diferente. Ao longo da sua vasta carreira tem cantado em diversos palcos famosos de todo o mundo e apareceu em publicações importantes como o Billboard, New York Times, Libération e Die Zeigt.