A viagem começou no Porto e passou por Estremoz, Badajoz e Sevilha antes da chegada a Granada. Saímos do Porto pelas oito horas. Cidade tantas vezes nomeada melhor destino europeu, o que lhe vale um mar de turistas favorável aos negócios e péssimo para a conservação do património.

Porque o tempo urge, encurtamos o caminho (e a narrativa), economizando.

O Alentejo é uma pintura extensa de quase natureza morta em tons dourados reminiscentes de uma África e Andaluzia, espécie de irmãs gémeas.

Diferem os aromas e os sons, se bem que não faltem também cantos de cigarra no sul de Espanha. E gostaríamos fosse o Alentejo seco e descurado, um prolongamento da Andaluzia organizada e bem cultivada.

Não longe de Estremoz, o castelo de Evoramonte chama a atenção num dos pontos altos da serra de Ossa. Um longe tão perto que parece abeirado da estrada. Com tanto do século XII que nos inspira, deixamos para trás a miragem, marcando uma cruz no mapa pela vontade de regressar com esse mais tempo que hoje nos foge.

O ideal seria parar em cada localidade histórica e fazer um levantamento digno de um guia artístico e cultural.

Logo à entrada de Estremoz, deparamos com o edifício devoluto da Federação Nacional dos Produtos de Trigo – prova viva de que a agricultura está morta. Nossa alma chora com a degradação do património português.

Alentejo histórico que vale a pena visitar

Passado o meio-dia, um calor de morrer.

Para entrar no castelo, atravessamos o centro histórico. Ressaltam o hotel O Gadanha, com portas medievais de bordaduras recortadas; o pelourinho e as muralhas do paço com influências moçárabes; a torre manuelina de um branco sobre branco e pérola da pedra mais antiga. Repetem-se portais ogivais do casario medievo, com alvenaria como bordada e ainda algo conservada. Se bem que a maioria se encontre revestida de cimento, à falta de consciência e medidas que obriguem à preservação.

Uma política que se tem expandido a Portugal de norte a sul, em especial em Lisboa e Porto onde o turismo paga a vida a quase todos e as unidades hoteleiras e lojas chacinam tantos edifícios antigos, dando o mau exemplo.

Foi-se preservando algo do passado que, actualmente, se avassala com a destruição do património arquitectónico, artístico, cultural e/ou natural, a favor de milhares e milhões de euros – preço a pagar pelos apartamentos que o substitui.

Quanto muito ficam as fachadas em fraca representação e a desordem urbanística. Estarão os turistas interessados em observar os novos edifícios construídos na ruína de outros anteriores?

No castelo de Estremoz do século XII, junto à estátua de Isabel de Aragão, a Rainha Santa, fez-nos parar o paço da Audiência com torre sineira e galeria exterior com arcada ogival. Respiraria melhor sem a cadeia quinhentista, ao lado, com gárgulas góticas e traços de Setecentos.

Distinguir-se-ia também a zona nobre da pousada, aparentada com um convento que se agarra à torre seiscentista, em relação à igreja medieva do paço que mal se apercebe.

Os ambientes em torno do claustro, as nervuras dos tectos abobadados, o recorte da muralha que delimita o jardim, parecem manter-se. E são mais visíveis os séculos XVI-XVIII do que aquele do tempo de D. Dinis (1279-1325), o rei poeta que mandou construir para a mulher, Rainha Santa Isabel, este paço tornado Pousada de Estremoz.

Na decoração, apontamentos raros como as cadeiras de couro lavrado, pintado a verde e ouro, com pregaria e assentos rematados por franjas. Mais frequentes em ambientes decorativos históricos, a mesa ao centro indo-portuguesa e os tronos revivalistas do século XIX a recordar os móveis de aparato barrocos. A arcaria e tectos góticos, ornamentados com nervuras dos salões, criam o cenário propício a uma decoração ecléctica.

A caminho de Espanha

De volta à estrada nacional, surgiram pedreiras em caminho perfumado que se liga a Badajoz com rio seco atravessado por pontes medieval e oitocentista.

Vestígios da muralha sem ameias, com vigias e portas cimentadas a decorar o jardim romântico. Calor na ordem dos 29º. Já em finais do século XIX, as suas fortificações se encontravam maltratadas com castelo mourisco a desabar (consta).

A 70 km de Córdova, por estrada em linha recta, campos de tomate, girassol, oliveira, centeio ou milho dourado, tudo agricultado. Um ou outro castelo ao longe com torre ao centro. Mal se entra na via rápida, surge um semideserto a 32-33º e o ar embebeda-se de caril.

Arbustos floridos separam os sentidos contrários e não se pagam portagens, sendo estas vias alternativas melhores que as autoestradas portuguesas. A 50 km de Sevilha, 34º. O túnel e a cordilheira. Sevilha ao largo, a 36º. A secura de uma viagem de vento e pó que é nada; fumo de queimadas de um fogo que não existe por não se ver. Por entre fábricas nos subúrbios, bafo de estrume e azeitona. A estrada sem fim para Granada, penteada a meio por buxos floridos e com mais curvas. Um mar de oliveiras e girassol.

Não paramos em Sevilha, para chegar a Granada a horas de conseguir um quarto de hotel. Diziam ser cidade mal arruada, os viajantes portugueses do século XIX e limiar do século XX. Enalteciam a notável catedral levantada por moldes da arte gótica em templo mouro, o museu de pinturas da escola sevilhana com destaque para Murillo, as noites sensuais.

De Sevilha, ficou-nos o espaço fantasmagórico da Exposição Universal de 1992, o correr de palmeiras disformes e a extensa ponte em arco dos engenheiros Juan José Arenas de Pablo e Marcos Jesús Pantaleón Prieto – a puente de la Barqueta (1989-92).

Osuna na colina não longe. Ressaltam a colegiata de Santa Maria de la Asunción, o convento da Encarnación e a universidade do século XVI. Nas imediações, altos silos de cereais e Estepa às 19 horas e a 31º. A oliveira desenhando montes e vales, a cordilheira alternando montanhas nuas e vestidas de verde, as povoações brancas no sopé, a geometria da paisagem cultivada, um exemplo face ao descuido do interior português.

Archidona, miragem no sopé da montanha com duas “bossas” nuas na constância das oliveira pela cordilheira que encobre o mar.

A 5 km de Granada, o cheiro nauseabundo da suposta indústria que não se avista. E finalmente Granada, às 20h15 (21h15 em Espanha), ainda com luz solar e a 30º. Avenidas movimentadas, hotéis para todos os gostos e bolsas, restaurantes, bares e esplanadas cheios. Espaços palacianos e militares. A interpretação de várias culturas no tempo. A morosidade da arquitectura, pensada para ser vivida em contacto com a natureza.

O charme de Granada

O termómetro marcava 33º. O calor influenciou a disposição e as escolhas de um continuado correr contra o tempo.

A Universidade de Granada bebe do charme do mosteiro de Nuestra Señora de la Asunción, mais conhecido como a Cartuja de Granada, fundado em 1506. Demorou mais de 300 anos a ser construído, resultando numa combinação dos estilos gótico, renascentista e barroco. O polo universitário com avenidas e espaços abertos onde se respira, aponta para Alhambra.

Esta primeira cidade de Espanha ocupada do século VIII ao século XV (1492), pelos mouros, até à conquista dos reis católicos, mantém muito do que sempre foi.

Coroada pela Sierra Nevada que a embeleza e confere um ar insólito, distingue edifícios geometricamente ordenados: a Catedral construída entre 1529 e 1560, com fachada de três portas e 15 capelas ricas em esculturas e pinturas; a Cartuja adornada de mármores e pinturas de Palomino; o hospital real; a porta Elvira de construção árabe; a Alhambra com cinco pátios interiores, sendo os principais o dos Arrayanes e dos Leões. O último cercado por 124 colunas com fonte apoiada em 12 leões de mármore.

O complexo de Alhambra é demasiado extenso para visitar em poucas horas. Filas intermináveis, debaixo de um calor abrasador de 35º. Valeu-nos o canto interrupto das cigarras e o aroma fresco do buxo regado. “Para ver tudo, são três horas”, escutamos em língua portuguesa de Portugal. Reconforta-nos confirmar que os portugueses de hoje também viajam por destinos culturais. No exterior das antigas muralhas, são de evitar as tantas lojas para turistas onde prevalece o mau gosto e algumas ciganas que tentam a sorte. As influências islâmicas são notórias no casario com portais dos séculos XV e XVI encimados pela cruz de Cristo. Modos de vida mesclados.

Ficaram as impressões de um centro histórico labiríntico, formado por uma encruzilhada de ruas estreitas plenas de gente que não se amontoa. Chamam a atenção uma parte da calçada medieval preservada, a ponte romana que atravessa o rio Genil praticamente seco. Há espaço para respirar, fontes de água fresca e saborosa, muita sombra para repousar das altas temperaturas.

Aconselhamos a visita dos menos conhecidos jardins de Carmen de los Martires, mirando a Sierra Nevada a 2800 metros de altitude (maciço montanhoso de maior altitude da Europa, depois do Cáucaso e Alpes, declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO em 1986); hotel Alhambra Palace a 10 minutos do bairro mouro medieval de Albaicín, classificado como Património Mundial pela UNESCO; igreja de Santo Domingo de Granada que mistura o gótico, renascentista e barroco, por ter sido iniciada em 1512 e não acabada. É vigiada por estátua de bronze de Frei Luiz de Granada (1504-1588), pregador dominicano com influência em toda a Europa, falecido em Lisboa.

Os terrenos de Carmen de los Martires eram conhecidos por Corral de los Cautivos por os presos cristãos serem aí presos nas masmorras árabes. Com a tomada de Granada em 1492, a rainha Isabel I de Castela (1451-1504), mandou erigir, no topo da colina, a primeira igreja de Granada em honra dos martirizados. Em 1573, a igreja converteu-se em convento de carmelitas descalços. Daí o nome.

Regresso ao Porto pelo Algarve

À saída de Granada, o aroma de flores intensifica. De novo Sevilha em direcção a Huelva, hectares e hectares de oliveira, autovias fantásticas sem portagem. Lembro a polémica das SCUT e Portugal de brandos costumes com um povo que tudo aceita sem revoltas eficazes.

A vontade de chegar ao Algarve, a tempo de um banho de água salgada, fez com que seguíssemos de Sevilha a Huelva sem parar, debaixo de uma insuportável temperatura, oscilando entre os 35º-36º. Nas imediações de Ayamonte, a 15 km de Portugal, surge um aviso de pagamento de portagem e o aroma intenso a mar num registo de 25º em Vila Real de Santo António. Talvez seja este mar a razão da saudade porque de impostos estamos fartos.

Os arbustos floridos dividem os sentidos da autoestrada, mas não em constância como em Espanha. Sobrepõe-se a vegetação selvagem e os campos ao descuido num país bom na geografia, gastronomia, simpatia do povo, mas pouco cuidado na imagem e preservação.

De Vila Real de Santo António a Almacil, já raramente usufruindo dos sabores de mar e campo que a velocidade na autoestrada não respeita. Seguidamente, Lisboa com paragem em Fátima e chegada ao Porto que foi cinza e frio e hoje se enche de sol.

Paramos em Fátima, como bons viajantes que agradecem a caminhada. Santuário desde 1917 assinalado no mapa, com a aparição de Santa Maria. A luz e calor das velas nas imediações da capelinha das aparições (1919); os terços de contas que, junto à basílica da Santíssima Trindade (2007), assinada pelo arquitecto grego nascido na Índia, Alexandros Tombazis (n. 1939), estão representados pelo terço gigante de Joana Vasconcelos (n. 1971) com 28 metros de altura e 540 kg; a cruz alta de Robert Schad (n. 1953) com 34 metros; as esculturas das aparições, do anjo da paz e de Jacinta da autoria de Clara Menéres (1943-2018); as formas e cor de obras de outros artistas unidas no silêncio e paz. A fé difícil de alimentar com as vicissitudes da vida que nós, portugueses, aceitamos sem deixar esmorecer a esperança. A arte associada ao divino que intensifica as emoções e credita a eternidade cujo culto a Igreja teve mérito desde há séculos.

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