Não é raro ouvir a Música brasileira em Portugal. Seja no rádio enquanto se está dentro de um Uber a caminho do trabalho, ou ao passar frente a uma casa de lanches no Porto, em Lisboa, ou nas discotecas aos fins-de-semana onde se pode ouvir géneros como o funk das periferias do Rio de Janeiro e São Paulo sem precisar para isto cruzar o Atlântico. Já temos cá Rock in Rio Lisboa, Villa Mix Festival e tantos outros eventos que trazem os maiores artistas do Brasil para cantar os seus êxitos em Portugal, logo a música brasileira já não é estranha, de modo algum.

Mas o que poderá explicar a influência cultural dos sons que vêm da antiga colónia?

Quem poderá ajudar a entender isto é o produtor musical e compositor Hebert Neri. Conversamos durante uma tarde num conhecido café musical do Porto com o produtor, que é brasileiro e está em Portugal a desenvolver diversos trabalhos artísticos e culturais. O músico foi uma das atrações do Festival Gerações, promovido pela Câmara Municipal de Castelo de Paiva, atua como teclista na banda de pop rock portuguesa D'Alma e já se apresentou na RTP1, trazendo consigo a perceção da cena cultural e musical de ambos os países, que partilham um passado em comum, mas que tem tantas peculiaridades.

Como tudo começou?

Para Neri, existem alguns motivos para que a música e os artistas brasileiros sejam tão influentes em Portugal: "acredito que tudo terá começado com as novelas brasileiras, que são exibidas cá há anos e trazem consigo nossa cultura, música, pronúncia e costumes. Penso que as novelas abriram portas para os artistas e para a cultura brasileira muito antes da explosão das redes sociais, do YouTube e da própria internet, a preparar terreno para que houvesse uma melhor aceitação do público português para a nossa produção cultural", referiu.

O músico também acredita que o que encanta os portugueses possa ser a diversidade: "é possível que o português se encante não apenas com as cadências da nossa pronúncia, mais suave e ritmada, mas também com a diversidade e riqueza da música brasileira", explicou. Portugal, ao longo dos séculos, teve influências mouras, celtas e de outros povos que vieram para a península ibérica, o que se reflete na sua música, arquitetura, arte e até mesmo na pronúncia, considerou o produtor.

"O Brasil, contudo, em curto período de tempo, teve além da colonização portuguesa a influência germânica, italiana, africana, japonesa, indígena e recentemente norte-americana, onde alguns especialistas acreditam que a fusão do jazz estadunidense com o samba herdado dos povos africanos terá sido a inspiração para a Bossa Nova, por exemplo", contrapôs. "Somos um país de uma diversidade cultural imensa e que ocorreu em um período muito curto de tempo, o que torna nossa musicalidade única no mundo e extremamente atrativa".

Hebert também refere que em Portugal a produção musical é menos diversificada que no Brasil: "o que percebo aqui é que existe muita música no país, e com uma riqueza impressionante em cada uma das regiões, que mesmo tão pequenas têm dialetos, pronúncias e até mesmo instrumentos que lhes são próprios", afirmou. "Contudo, em boa parte, são cantigas folclóricas, regionais, e que não ganham os grandes palcos a todo tempo, o que faz com que o público português acabe por, embora tenha muito orgulho e apreço por sua música, consumir hits internacionais, do pop, do rock e géneros mais voltados às massas."

Pelo contrário, o Brasil produz desde o Axé de Ivete Sangalo até ao rock dos Detonautas, passando pelo pop de Anitta, o funk de Kevinho e a MPB de Caetano Veloso, Djavan, Ivan Lins e a nova MPB de Anavitória e Tiago Iorc, por exemplo.

"Embora Portugal tenha uma riqueza inestimável musical, não percebo que a produção fonográfica portuguesa seja tão diversificada como a brasileira, que oferece músicas e artistas tanto de discoteca como de concertos eruditos. Naturalmente, também temos mais artistas porque temos mais população e temos mais diversidade porque temos mais influências no processo de formação de nosso povo", acrescentou.

O poder da música

No entanto, Hebert ressalta que a música é das artes que consegue atingir a alma e o coração de uma forma especial: "acredito também que a música brasileira é bem aceite em Portugal porque há muito mais o que nos une do que o que nos separe. Não existiria Brasil se não fosse Portugal, somos filhos desta terra, e daqui herdamos o idioma, muitos costumes e muito do que somos."

O produtor acredita que, quando o português ouve a música brasileira, não é apenas alcançado pelo poder de emocionar e tocar que a música tem, "mas também pelo sentimento de pertença, de fazer parte disto, de termos raízes profundas em comum e que felizmente, graças a globalização e a internet, hoje se tornam mais profundas e já não há hiato entre o que acontece cá e lá." Hebert referiu que gostaria de ver os artistas e a cultura portuguesa a chegarem ao Brasil "na mesma intensidade que as coisas do Brasil chegam cá. As semelhanças estão nítidas e vão muito além do idioma".

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