Há exatamente 98 anos terminava a Batalha de Verdun. Um dos maiores confrontos da Primeira Guerra Mundial, é a batalha na qual autores como Norman Stone dizem que o poderio militar francês morreu, tal foi a selvajaria. O poderio militar que um dia fora capaz de conquistar a Europa perdia cerca de meio milhão de homens e, apesar de eventualmente se recuperarem os números, o trauma deixaria a sua marca indelével. Esta batalha deu-se numa altura em que os ódios mútuos já estavam bem entrincheirados, por assim dizer, em ambos os lados.

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No entanto, no início da guerra a situação era ligeiramente diferente, levando-nos então a esta comparação entre o fim do massacre de Verdun e o evento que se celebra dentro de uns dias.

Para termos uma verdadeira noção das implicações das tréguas de Natal temos de compreender um pouco o contexto em que sucederam. Antes da guerra o Reino Unido não tinha realmente grandes feudos para com a Alemanha, um país recente e cujas rivalidades se focavam mais na França e na Rússia. Aliás, a poucos dias do início do conflito, a 28 de Julho, as dirigentes britânicos consideravam seriamente a hipótese de se absterem totalmente.

Mais ainda, o rei britânico, o kaiser alemão e o czar russo eram todos primos. Não se viam realmente razões para ódios entre estas populações. No entanto, com o início da guerra veio a invasão da Bélgica e a necessidade do Reino Unido de fazer vingar os seus acordos políticos. A propaganda foi amplamente utilizada para difundir e exagerar as atrocidades alemãs na Bélgica, numa pretensão de se dar uma maior justificação à renovada posição britânica.

O que se seguiu foi provavelmente uma das épocas de maior violência selvagem na História da humanidade, com a Batalha das Fronteiras e a Corrida para o Mar a reclamarem centenas de milhar de vidas em pouco mais de três meses.

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Pelo fim do ano todos os envolvidos estavam esgotados, alguns até acreditavam que seria impossível a guerra continuar após tamanha mortandade. Portanto insurgiu-se esta ideia de viver e deixar viver e até uma certa simpatia pelo soldado inimigo. Na zona norte do campo de trincheiras que agora dividia a Europa, desde o Canal da Mancha até à Suíça, tropas britânicas e alemãs, que como eu disse não tinham qualquer feudo entre si antes do início do conflito, encontraram-se para celebrar o Natal, trocar prendas e até jogar futebol.

Também houve eventos menores entre os russos e os austríacos na Frente Leste, mas já os franceses mantiveram-se em grande medida fora destas iniciativas. Verdade seja dita, era o país deles que os alemães estavam a invadir.

Sabendo do quanto esta iniciativa poderia afetar o esforço de guerra, os altos comandos proibiriam tais ações no futuro. No entanto, a continuada selvajaria e mortandade tornariam tais ordens vãs. Podemos até dizer que finalmente destruíram o idealismo da época precedente.

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Após a devastação de Verdun e o horror das armas químicas, o ódio instaurou-se finalmente e apenas o colapso total de um dos lados poderia finalmente pôr fim à guerra.