Apesar de ser um membro do Conselho de Cooperação do Golfo, dominado pelos interesses sauditas, o Sultanato de Omã não se comprometeu na atual campanha militar em curso no Iémen. O facto não passou despercebido, e é evidente que Mascate se tenta afastar do confronto direto com Teerão, que criticou os referidos ataques, declarando que apenas iriam desestabilizar ainda mais a região.

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Informações surgidas no fim-de-semana passado parecem indicar que se está a dar uma aproximação entre Omã e o Irão no sentido de se procurar uma saída diplomática para a questão iemenita.



Esta não seria a primeira vez que o regime de Mascate era abordado para servir como intermediário em disputas no Médio Oriente. Em 2009 ajudou a libertar cidadãos americanos presos como espiões no Irão, e em 2012 fez o mesmo por uma cidadã iraniana presa nos Estados Unidos. Mascate também teve um papel crucial nas negociações em relação ao programa nuclear iraniano.

Sultão Qaboos, líder do Sultanado de Omã.
Sultão Qaboos, líder do Sultanado de Omã.





Em termos ideológicos, Omã é maioritariamente Ibadita, uma vertente do islamismo distinta dos sectores Sunitas e Xiitas, e que apesar de usualmente descrita como puritana, assume preferência por resoluções diplomáticas de conflitos. Assim sendo, pode-se assumir que este país tentará, dentro do possível, manter-se neutro em relação à disputa entre Riade e Teerão pelo domínio regional. Foi talvez por isso mesmo que o Irão procurou o Sultão Qaboos, que governa Omã desde 1970. Recorde-se que no início do reinado de Qaboos, tropas iranianas haviam ajudado na derrota de forças rebeldes que então ameaçavam o país.

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No entanto convém ter em conta que o cerne do relacionamento entre estas duas nações é económico. Um oleoduto construído no fundo do Estreito de Ormuz serve para vender gás natural iraniano a Mascate, que depois exporta grandes quantidades para a Ásia. Existem também outros fortes investimentos entre as duas nações, que são vistos como uma bonança para o Irão, afetado como está pelas sanções impostas pela ONU. O atual acordo delineado com a comunidade internacional em relação ao programa nuclear de Teerão é visto como uma excelente oportunidade para expandir ainda mais os atos comerciais, e o governo de Omã crê que um mercado iraniano aberto não seria apenas uma excelente fonte de negócio, como beneficiaria todos aqueles dispostos a normalizar as relações políticas.



Não obstante a posição de Mascate, Riade e seus aliados mantêm uma boa dose de ceticismo em relação aos interesses iranianos.

O assessor presidencial iraniano Ali Younesi declarou numa conferência recente que Teerão tem, de facto, a ambição de criar um “Grande Irão” que se estenderia desde o Líbano até ao Paquistão, refletindo o contexto global do pensamento estratégico iraniano. O uso de milícias Sunitas, apesar de parecer contraditório para o Irão Xiita, seria apenas uma faceta do emprego do terrorismo como arma para desestabilizar os seus inimigos. O Hezbollah seria mais uma de tais ferramentas, ostensivamente pensada para destruir Israel.



Neste contexto, o acordo com Washington, apesar de poder atrasar num ano ou mais o desenvolvimento de armas nucleares iranianas, serviria para derrubar as sanções e revitalizar a economia, e assim dar a Teerão o acesso a recursos que permitiriam avançar com a referida agenda política. Analistas como George Friedman assumem que Washington sabe disto, mas tenta jogar com os interesses antagónicos de Riade e Teerão em seu proveito, num jogo perigoso que será certamente difícil de gerir.

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