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Comecemos pelo presente. A taxa de criminalidade na Venezuela é uma das mais elevadas do Mundo. A escalada de violência provoca mortes sucessivas e os responsáveis saem impunes. Nos supermercados, as prateleiras são autênticos fantasmas, vazias. O sistema de saúde caiu abruptamente, entrando em profundo colapso. Um bem tão essencial como a energia entrou num estado de racionamento preocupante. Esta é a Venezuela de hoje. Aquele que outrora já foi o país mais rico da América Latina, graças ao petróleo (a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do Mundo), entrou em ruína. Afinal, o que aconteceu?

Para Andrés Malamud, Doutorado em Ciência Política e Professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, a situação actual da Venezuela resume-se a um “colapso económico e bancarrota fiscal”.

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Desconstruindo esta ideia, o docente acredita que este país entrou economicamente em colapso porque “a Venezuela só exporta petróleo e, devido aos baixos preços internacionais e à destruição da PDVSA (Petróleos da Venezuela, uma empresa estatal venezuelana), não consegue financiar as importações de alimentos e medicinas”. Por outro lado, a bancarrota fiscal deve-se ao facto de o Estado ter quebrado e, para o especialista, “mais cedo que tarde deverá recorrer ao endividamento externo para se financiar, mas antes disso acontecerá o calote”.

Uma relação muito próxima com o país

Nancy Gomes é professora na Universidade Autónoma de Lisboa e especializada em temas da América Latina. Mas, apesar de o seu percurso profissional falar por si, Nancy Gomes tem uma relação muito próxima com este país uma vez que viveu durante anos em Caracas.

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Para a docente, e tal como foi defendido por Andrés Malamud, a Venezuela atravessa uma crise económica provocada pela descida dos preços do petróleo. No campo macroeconómico, “houve uma contracção de 5,7% no PIB, em 2015 (BCV)”. “No domínio da política monetária, o regime de câmbio fixo adoptado pelo governo de Hugo Chávez, em 2003, ao mesmo tempo que beneficiou claramente alguns sectores com acesso facilitado às divisas, tem incentivado a emergência de um ‘mercado negro’ paralelo onde o dólar americano pode ser vendido cem vezes ou mais os valores fixos preestabelecidos”, explicou em conversa com a BN.

Crise humanitária. Há racionamento de luz. Não há comida nem medicamentos. “A escassez de reservas internacionais tem levado ao mesmo tempo à escassez de bens essenciais, incluindo alimentos e medicamentos, gerando uma situação de grave deterioração a nível humanitário”, disse Nancy Gomes.

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Para muitos venezuelanos, não fazer uma refeição já é considerado habitual. Comprar produtos básicos, como azeite, farinha de milho (que custa hoje dez vezes mais do que no início deste ano) é sinónimo de filas intermináveis em frente aos supermercados.

Criminalidade de mãos dadas com a impunidade

Associada a tudo o que foi referido, a criminalidade aumenta a olhos vistos. De acordo com o que Nancy Gomes nos revelou, tendo como base dados do Observatório Venezolano de Violencia, em 2015 foram registadas quase 28 mil mortes violentas. Ainda mais grave, “à criminalidade junta-se a impunidade e outros problemas graves como a corrupção e os vínculos que se criam entre certos sectores legítimos de poder e o crime organizado, contribuindo para um clima geral onde é escassa a confiança nas instituições do Estado e reina o desespero perante o futuro”, explicou a docente.

Como consequência, o desejo de sair do país está cada vez mais presente sobretudo nos mais jovens que “anseiam sair do país à procura de melhores condições de vida”.

Aliás, de acordo com José Luís Carneiro, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, à margem de uma recente visita a Caracas, têm aumentado os pedidos de renovação e emissão de cartões de cidadão e passaportes, bem como os pedidos de obtenção de nacionalidade portuguesa, essencialmente para luso-descendentes.