Este dia de Natal foisangrento um pouco por todo o chamado Mundo Árabe. Desde os combatesna Líbia, que mataram 19 soldados, até ao cocktail molotov lançadosobre um carro em Israel, que queimou gravemente uma menina de 11anos, a violência, muitas vezes súbita e brutal, é uma parterecorrente do dia-a-dia. Mais ainda, ontem um caça F-16 jordanodespenhou-se sobre a Síria, tendo o piloto sido capturado peloEstado Islâmico.

Para finalizar esta lista de tristes eventos, temosainda a prisão de um adolescente na Turquia, acusado de insultar oPresidente Erdogan.

Este não é, de todo, umquadro bonito. O que vemos, enquanto audiência, é uma vaga deviolência sem sentido que parece vir a acontecer desde sempre. Creioque poucos terão hoje noção que a maior parte do Mundo Árabe, eaté parte da Europa, foi até há relativamente pouco tempo dominada pelo Império Otomano, cujo líder e sultão também reclamava oestatuto de Califa.

Na alvorada do Século XX, este império estavajá decadente, vários dos seus territórios tendo sido entretantotomados por potências estrangeiras, sobretudo a França e o ReinoUnido, ou alcançado a independência. Com a derrota no fim daPrimeira Guerra Mundial, o Império Otomano acabou por finalmente sedissolver em 1920. Este colapso abriu caminho à criação da modernaTurquia, que outrora estivera no centro do império, e à ocupaçãodos restantes territórios pelas potências europeias descritasanteriormente.

Os mandatos da Sociedade das Nações determinados paraestes territórios levaram à delimitação dos mesmos segundo linhasque raramente traduziam a real situação étnica no terreno. Veja-seque a maior parte das comunidades do Norte de África e MédioOriente eram, como o são hoje, essencialmente tribais em natureza.Isto significa que a identidade cultural se prende com um gruporelativamente pequeno acima de tudo o resto.

Esta identidadelocalizada será então associada a identificações um poucomaiores, que incluem as próprias divisões internas das filosofiasreligiosas, entre conceitos islâmicos, cristãos, etc.

Ora, as divisõesterritoriais como entendidas pelos europeus não traduziam, em grandemedida, a situação real dentro desses espaços, criando mantas deretalhos em que identificações culturais estavam fragmentadas entrefronteiras, um pouco como sucedera antes em África.

O que sucedeuapós o colapso dos impérios na segunda metade do Século XX será,de certo modo, algo polémico, mas em termos gerais os estados que seformaram nesse período, como o Egito, a Síria ou o Iraque,mantiveram-se mais ou menos estáveis conquanto tivessem regimesautoritários no poder, que subjugassem estes diferentes povos quenão queriam realmente estar juntos pelo medo. Isto não quer dizerque não existam verdadeiros aderentes das identidades nacionais, maspelo que compreendo da situação, tais nacionalistas árabes serãosobretudo gente urbana, uma vez que a lógica social citadina difereda tribal.

Com a Primavera Árabevimos o surgimento da oposição aberta a este sistema de fronteirasartificiais, o que leva à situação com que lidamos de momento,aquilo que certos teóricos definem como uma redefinição defronteiras, e a formação de territórios mais em conta com asverdadeiras identidades regionais. Se esse é realmente o caso, entãoa violência que atualmente medra na região é apenas o início deuma tempestade bem maior.

 

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