"Onde é que você estava no 25 de Abril de 1974?" Pergunta já estereotipada, mas a que vou responder. Nesse dia de Abril, final da manhã, frente à "cantina velha" da Cidade Universitária estou eu e mais três estudantes-comensais. Verificamos que a cantina está encerrada porque… está a haver um golpe de Estado. Pergunta: "Da extrema-direita, do Kaúlza de Arriaga?" Resposta: "Não, parece que aquilo foi feito por capitães". "E na rádio está a passar música do Zeca Afonso. O golpe não deve ser de direita!". Surpresa total: afinal, o Estado Novo pode não ser eterno!

Cena seguinte: na Baixa, à entrada do metro dos Restauradores, eu e mais dois rapazes e uma rapariga.

A alguns metros dali, uns poucos soldados da GNR com metralhadoras, alinhados junto à parede do hotel Avenida Palace, aparentemente desorientados. De repente, uma rajada de metralhadora. De onde vem isto? Reacção imediata minha e dos tais jovens: correria para dentro do metro (isto, sem armas -- eu nem sequer tinha feito tropa --, não somos nada!). Soube depois que os disparos foram feitos contra o Quartel do Carmo, que albergava o Presidente da República e o Primeiro-Ministro.

Vagueando pela baixa, cheguei a aperceber-me do saque de uma loja. "São loucos. Se os saqueadores fossem apanhados, podiam ser fuzilados", desferiu um estudante de Direito ali presente. Muita animação, sorrisos e confusão. A Primavera no auge. No entanto, fui depois informado que alguns cidadãos tinham sido assassinados por agentes da Pide/DGS.

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A impoluta "revolução dos cravos", manchada a vermelho de sangue.

E já pela tardinha, no Chiado, deparei-me com um colega da Universidade, ligado à União dos Estudantes Comunistas (ramo estudantil do PCP), a quem eu disse que estava com fome. Resposta dele, emocionada: "Antes passar fome um dia do que passar fome toda a vida". Isto dito com uma expressão idêntica à de um revolucionário do "Couraçado Potemkine". Mesmo sem o boné proletário. Eu era então revisor de imprensa no pré-histórico "Jornal do Comércio", em horário nocturno, supranumerário -- regime de trabalho eventual, que obrigava a que o profissional só "avançasse" para trabalhar, quando um funcionário efectivo faltasse ao serviço.

E na noite desse dia nem fiz o telefonema da praxe para o jornal: "Posso 'avançar?'" Porque eu estava numa revolução... Talvez o jornal até viesse a fechar, nessa noite... Outra influência nesse sentido foi a frase, ecoando nos meus ouvidos, de um colega meu desse diário, supra como eu: "Ser supranumerário neste jornal é ser escravo." De facto, por hábito, o revisor supra era chamado para substituir o efectivo (em geral, com um segundo emprego) somente quando este se queria livrar do piquete a que estava previamente escalado, que o obrigaria a permanecer no jornal até ao fecho da edição, lá pelas duas horas ou mais, da madrugada.

Portanto, até nisto eu necessitaria de um 25 de Abril libertador… Final deste filme: Uma das primeiras medidas laborais do Governo revolucionário foi acabar com os supranumerários da revisão de imprensa, passando-os de imediato a efectivos. É evidente que libertaram da escravidão muitos outros supras do Portugal trabalhador!.. Essa foi para mim, portanto, uma importante "conquista da revolução". Mas nada - nadinha - significando esse meu singelo emprego estável, comparado às conquistas gigantes do 25 de Abril: a Democracia, liberdade de expressão, a dignidade da cidadania, a supressão de preceitos anti-progresso.