Foi a 21 de maio que Rita Ferro Rodrigues, uma das personalidades que, juntamente com Iva Domingues, criou o projecto Maria Capaz, publicou na página de Facebook da iniciativa um desafio à criação de um logótipo. As mensagens de reprovação por tal conduta não tardaram. Em causa estava o facto de o apelo não referir remuneração. "O autor ficará para sempre ligado a este projecto, será entrevistado por nós e terá honras de divulgação do seu trabalho nesta plataforma" - era esta a única referência feita àquilo que o criador do logótipo vencedor poderia receber em troca.

Mais tarde, face à quantidade de publicações a repudiar o desafio, o apelo original foi retirado da página e as autoras referiram num comunicado posterior que pelo menos o vencedor seria recompensado.

"Infelizmente, não nos é possível remunerar todas as pessoas que apresentem trabalhos para avaliação. Pedimos desculpas a todos aqueles que gostariam de participar, mas iremos desenvolver este projecto internamente e sem a interacção da comunidade. Obrigada a todos", dizia a mensagem.

Segundo a plataforma Ganhem Vergonha, o concurso para a criação de um logótipo foi um exemplo de trabalho especulativo. Este é um tipo de incentivo à precariedade que abunda hoje em dia, especialmente em áreas como as artes gráficas. Através de concursos como o que Maria Capaz sugeriu, empresas obtêm trabalhos de forma gratuita ou a preços simbólicos, o que contribui ainda mais para a precariedade dos sectores em que trabalham, já que dos vários candidatos, apenas um é reconhecido e, talvez, recompensado.

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Além do mais, "no grupo de cronistas do site Maria Capaz estão várias pessoas que costumam lutar pelos direitos laborais", referiu a plataforma Ganhem Vergonha, o que torna o caso ainda mais peculiar.

Ainda que vários outros leitores tivessem comentado que em vez que demonstrar revolta, quem não gostou da ideia podia apenas não participar, a conduta desta plataforma, que desde o início se mostra a favor da igualdade de direitos, foi como que o rastilho de um barril de pólvora. Há muito que os jovens de áreas como o design e a ilustração lidam com a falta de emprego e as "oportunidades" de trabalho gratuito. O desafio de Maria Capaz pode ter sido apenas mais um, mas foi aquele que faltava para gerar a revolta que possivelmente irá unir quem trabalha neste sector.

Quem expressou descontentamento podia ter escolhido nada dizer e não participar, mas os comentários foram o desabafo de quem obviamente está cansado de não ter um emprego e de ver apenas anúncios que oferecem trabalho sem o retorno justo.

Não ajudou também que as autoras tenham escolhido a foto acima, na qual se estão a rir, para ilustrar o seu desafio, o qual incitaria vários candidatos a trabalhar para depois premiar apenas um.

A própria página Ganhem Vergonha, que frequentemente expõe casos de precariedade e anúncios de emprego que a promovem, conta com 25 mil "likes" e vários comentários de repúdio a anúncios de estágios, concursos e outras iniciativas que têm contribuído para diminuir os direitos dos trabalhadores. Se estes 25 mil fãs forem todos eles trabalhadores precários, já são demais. Mas ao menos nas Redes Sociais todos eles têm voz.