No passado coibi-me de escrever sobre o futuro, uma vez que evidentemente esse é um exercício que traz os seus próprios problemas. Contudo, com a crescente tensão entre a China e os Estados Unidos, em adição à já premente questão no Leste da Europa, creio ser um interessante exercício intelectual tentar imaginar qual seria o aspeto de um confronto entre os dois grandes blocos internacionais.

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Uma das razões pela qual acho tal exercício válido prende-se com aquilo que me parece ser a falácia da aniquilação imediata. Esta teoria apresenta problemas, sendo um deles o ignorar da doutrina de guerra nuclear e as contra-medidas existentes. Por outro lado, ecoam os receios que antecederam a Segunda Guerra Mundial, em que se temia que a mesma duraria apenas algumas horas devido ao poder dos bombardeiros.

Outro problema com a teoria da aniquilação nuclear imediata prende-se com os objetivos dos poderes envolvidos.

Teste de artilharia nuclear na Guerra Fria.
Teste de artilharia nuclear na Guerra Fria.

Antes de mais temos de observar que vemos uma ascensão da China, que vem contrariar a presença internacional dos EUA. Pequim, contudo, é dominado por um regime dependente de um crescimento económico contínuo, que terá sérios problemas em sustentar-se se isso não suceder. Deve-se ainda juntar a esta realidade o facto de que as políticas de natalidade criaram uma falta de talvez 100 milhões de mulheres na China, e a pobreza em que vive a maior parte da população, não obstante os sinais de lentas melhorias nessa frente.

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Neste contexto, Pequim sente a necessidade de controlar mais recursos e de estender a sua influência política, nomeadamente para as regiões nas suas imediações. Assim foram trazidas ao de cima grandes tensões com os vizinhos, com os quais a China tem um historial complexo e pouco amigável. Washington usa esta realidade para manter a sua presença na região, como o peso-pesado por detrás do movimento que se opõe a Pequim. Como vários analistas já refeririam no passado, o choque de poderes rivais tende, usualmente, a terminar em guerra.

Do outro lado do mundo Moscovo apresenta-se com um poder em queda livre, apesar dos sucessos aparentes do regime de Vladimir Putin. A grande desigualdade social, fertilidade reduzida e graves problemas de saúde através de diversos sectores da sociedade irão inevitavelmente trazer graves desafios para a sobrevivência da Federação Russa enquanto país. Existe também uma crise financeira e industrial que foi amplamente descrita noutros artigos.

A crise ucraniana é uma última tentativa de manter a predominância na Europa de Leste face à crescente (e muitas vezes agressiva) expansão do Bloco Ocidental.

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Veja-se que a Rússia admite necessitar de um cordão de segurança em seu redor e vê uma Ucrânia pro-ocidental como uma ameaça existencial.

Apesar dos diversos e muito reais antagonismos entre estas duas potências, tem-se dado uma aproximação entre as mesmas, mais evidente nos últimos anos. Numa primeira observação, esta realidade garantiria que o despoletar de qualquer conflito em grande escala na Europa ou no Pacífico levaria rapidamente à globalização do mesmo.

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Os EUA, a grande potência mundial, teriam dificuldade em gerir ambos os teatros, e os seus inimigos capitalizariam essa fraqueza.

Rússia e China, contudo, anseiam por controlo territorial. Precisam disso, e esse facto seria importante para evitar uma escalada nuclear, pelo menos numa primeira fase. Na próxima parte veremos que hipóteses estratégicas poderão utilizar estes poderes, e qual o raciocínio por detrás das mesmas.

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