"Eu não sou careca. Sou apenas maior do que aquilo que o meu cabelo alcança". A frase é de tom sharpe e ilustra bem o estilo muito próprio, e muito bem disposto, do autor britânico. O autor de "Wilt", um livro surrealista e satírico de levar o leitor às lagrimas. Um livro – "Wilt" – que criou uma saga e que deu a conhecer ao mundo o desmazelado mas carismático Henry Wilt.

Aliás, e apesar da sua publicação original datar de 1976, ainda é muito comum encontramos "Wilt" nas livrarias.

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E ver gente a lê-lo no metro ou nos bancos de jardim. Porque "Wilt", mais do que um livro de mensagens ou pensamentos profundos, é um livro que dispõe bem e que mostra a qualidade da abordagem surrealista e da história mirabolante. Mas com sentido. É uma espécie de loucura controlada, loucura inteligente, em que o autor viaja pela sua imaginação prodigiosa sem perder o passaporte para a realidade.

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Lucidez-loucura-lucidez.

Henry Wilt é um professor frustrado que ensina Literatura no Instituto de Letras e Tecnologia de Fenland, tendo como alunos maioritariamente estucadores e canalizadores. Henry espera anos por uma promoção que nunca surge. A sua relação com os alunos é monótona e repetitiva. Tédio e mais tédio. Se a sua vida profissional pode ser classificada como rotineira e cinzenta, a sua vida pessoal também já teve melhores dias.

A sua relação com Ewa Wilt é de difícil diálogo, de atrito constante, de tal forma que Henry passa os dias a fantasiar a melhor forma de matar a mulher. Curiosamente, "Como Matar a Mulher" é o título do filme, baseado no livro, que estreou em 1990, realizado por Michael Tuchner.

E não é que Ewa vai mesmo desaparecer? Chamado a investigar o caso, o Inspetor Flint vai analisar o comportamento de Henry, cuja relação com uma boneca insuflável numa festa vai levantar imensas suspeitas.

Mas afinal onde está a boneca insuflável? Será que a mesma existe ou a boneca era mesmo de carne e osso? Onde foi enterrada?

O livro é muito visual e há duas relações a ter em conta na narrativa: a relação entre Ewa e Henry e os interrogatórios policiais através dos diálogos entre Henry e Flint. E o desfecho da história é imprevisível lançando-se, também, as amarras para uma continuidade que surgiu anos depois com "A Alternativa Wilt" (1979), "Wilt na Maior" (1985), "Wilt em Triplicado" (1996), "Wilt em Parte Incerta" (2004) e "O Legado de Wilt" (2010).

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Este último livro foi editado poucos anos antes de Tom Sharpe falecer, em 2013.

Deixando o tal legado de escrita satírica. Incomparavelmente tresloucada mas ao mesmo tempo sóbria. Sem álcool. Porque, como Sharpe uma vez disse, "não há pior na vida que um bêbado introspetivo".

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