Está a chegar o final do primeiro período escolar... Assim como o fim das nossas forças e as das nossas crianças. Muitos de nós perguntamos se fazemos bem em pactuar com este sistema de Ensino, com este tipo de avaliação, que valoriza ‘resultados métricos’ e estimula a competição entre colegas.

Quantas vezes não olhamos para o programa escolar e pensamos se será adequado para uma criança daquela idade. E onde ficam as 'horas dela', de brincar, de aprender com essas brincadeiras, de se auto descobrir?

E o que deveria uma criança realmente aprender? Não deveria ter mais tempo para praticar e desenvolver outras aptidões, como a dança, o teatro, a música, ou qualquer outra actividade para a qual se sentisse atraída? Não deveria ter mais tempo para brincar? Para desenvolver a sua personalidade e a sua criatividade?

Será o QI mais importante que o QE? E está a ser realmente avaliado?

E porque é que resolver equações matemáticas é mais importante que tocar piano? Que estudar ciências é mais importante que dançar?

Será que o 'deficit de atenção' que atribuímos aos nossos filhos não é apenas, e simplesmente, 'deficit de interesse'...

É urgente repensar a escola de hoje.

A mensagem que estamos a passar aos adultos do futuro não será a mais correcta se lhes estamos a dizer que o seu sucesso será apenas o resultado da sua inteligência cognitiva, das suas notas quantitativas, e a umas determinadas disciplinas que alguém escolheu como as mais importantes na vida deles. Julgo que todos nós nos apercebemos que as nossas crianças têm boas notas às disciplinas que gostam, que lhes são transmitidas de uma forma prática, agradável, e até divertida se possível. A diferença entre um professor de ciências que ‘descarrega’ matéria no quadro, e outro que leva os seus alunos, de galochas, a plantar sementes e a mexer na terra, é bem maior do que imaginamos.

E o que podemos nós, pais, fazer contra o sistema imposto?

Imagine que podia criar uma instituição de ensino totalmente coerente com os seus valores. O que mudava?

Aconteceu com Musk que, sendo um milionário, o pôde fazer.

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Insatisfeito com o sistema de ensino tradicional, criou, em 2014, uma escola para os seus filhos, que acolhe também outras crianças. Chamou-lhe ‘Ad Astra’, algo como ‘Para as Estrelas’, um nome bastante adequado, ou não fossem as suas empresas dedicadas a viagens planetárias e os seus filhos as suas ‘Estrelas'.

Ali não se dividem os alunos pelas idades. O objectivo é fornecer a Educação conforme as características de cada aluno, combinando habilidades e aptidões; e o método de ensino é focado na resolução de problemas. Para ele faz mais sentido ‘investigar’ soluções do que dar respostas prontas (quem sabe, até já desactualizadas).

Um dos exemplos que costumam dar é sobre a preocupação moral e ética que incutem nos alunos. O professor pergunta-lhes: “Imaginem uma pequena cidade com um lago, onde a maioria dos moradores trabalha numa fábrica. Essa fábrica está a poluir o lago e a matar toda a vida que nele existe. O que faziam?”. É explicado aos alunos que fechar a fábrica implicaria que todos os moradores perdessem os seus empregos.

Por outro lado, manter a fábrica aberta significa que o lago vai acabar por ser destruído. Este tipo de exemplo real permite que as crianças vejam o mundo de uma forma muito importante.

Para quem está a pensar 'E quem é este homem para ter um opinião válida nesta matéria?' Elon Musk é um dos empresários mais ambiciosos da actualidade, que assume que a sua maior missão é colonizar Marte. Não, para ele não será um devaneio; dono de uma fortuna avaliada em 13 bilhões de dólares, é director executivo da SpaceX, uma empresa de transporte espacial, e da Tesla, é fundador da Boring Company, conhecida pela construção de infraestruturas, e cofundador da Open AI, uma instituição que investiga e desenvolve sistemas baseados em inteligência artificial.

Com apenas 12 anos, Musk vendeu um jogo de computador chamado "Blastar" a uma revista de computadores por 500 dólares, mas os seus dias de escola não foram fáceis, e chegou mesmo a ser hospitalizado depois de ter sido espancado por outros miúdos.

Este ano juntou-se ao conselho de consultoria de negócios do presidente Trump, pois pretendia usar sua proximidade com a Casa Branca para efectuar algumas mudanças. Mas acabou por desistir do cargo, depois de Trump ter retirado os EUA do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas.

Os seus filhos também não necessitavam propriamente de uma escola 'à medida', visto que frequentavam um colégio para crianças sobredotadas, que exige até que passem num teste de QI.

Mas este homem não quis a educação tradicional para os seus filhos...

E até porque estamos na época Natalícia, porque não voltar ao exemplo da Finlândia, terra do Pai Natal e das, tão faladas, boas escolas?

Entre preparar as crianças para as provas ou para a vida, escolheram a segunda opção. As escolas finlandesas apresentam os índices de desempenho mais altos do mundo, os seus alunos são os que mais lêem no planeta, e também os que passam menos horas a estudar.

Neste país não existem 'escolas de elite', todas as escolas têm as mesmas qualidades, recursos e financiamento, proporcionais ao seu tamanho. Lá ninguém pensa que a matemática é mais importante do que a educação artística. Pelo contrário: alunos com queda para o desenho, para a música ou para o desporto são o critério para a formação de classes especiais.

Os finlandeses não classificam os alunos segundo suas capacidades ou aspirações profissionais, tampouco há alunos 'bons' e 'maus'. É proibido fazer comparações entre alunos. Tanto os alunos mais inteligentes quanto os que têm dificuldade para aprender estão misturados com os demais, inclusive aqueles com deficiências físicas.

A profissão ou status social dos pais dos alunos são informações que os professores só ficam a saber se for necessário. Eles estão proibidos de perguntar aos alunos qualquer coisa nesse sentido. Os finlandeses têm também o chamado 'tratamento respeitoso aos alunos'. Os professores estão proibidos de humilhar os alunos, e estes podem fazer queixa se algum adulto os ofender seja fisicamente ou com palavras.

A educação, as refeições, as visitas a museus e as actividades extras são gratuitas. Assim como o material escolar, livros didácticos, calculadoras, PC's e tablets. Para cada aluno é estipulado um plano individual de estudo e desenvolvimento. As crianças com mais dificuldades são também apoiadas. Se aqui temos de pagar explicações, na Finlândia os professores titulares nas escolas ajudam os seus alunos voluntariamente, durante ou depois das aulas. Existe também a chamada 'educação correctiva', que funciona em grupos pequenos ou individualmente, para quem tem dificuldades com alguma matéria ou para corrigir um comportamento anti-social.

Ali só se ensina o que pode vir a ser útil na vida futura daquelas crianças. Sabem o que é um portfólio, um contrato, um livro de cheques, sabem calcular as percentagens do imposto sobre o vencimento, como criar um site, como calcular descontos em produtos, desenhar a Rosa dos Ventos e localizar o lugar onde vivem.

A confiança é posta no professor e no aluno. O professor pode aplicar o método de ensino que lhe parecer melhor, dentro do sistema de educação do país. E o aluno, se não quiser assistir a uma determinada aula, pode sair e ir fazer outra coisa. Ou seja, é a própria pessoa que escolhe o que é importante para sua vida.

A aptidão de cada aluno é avaliada por meio de exames e de consultas com orientadores vocacionais nas escolas e só estuda quem quiser estudar. Se por algum motivo o aluno não conseguir seguir o estudo académico, será orientado para uma escola técnica. Pois todas as profissões são necessárias e nenhuma é depreciativa.

Um dos aspectos muito importantes da educação finlandesa é fazer com que o aluno tenha uma vida independente no futuro. Não querem fórmulas decoradas, querem sim que cada um saiba fazer pesquisas na Internet, consultar bibliografias, usar computadores e calculadoras, para assim resolverem os problemas que se lhes deparem.

E preparar para a vida também é deixar que os alunos resolvam as questões entre si. Os pedagogos não interferem quando existem conflitos, cada um tem de desenvolver a sua capacidade de se defender correctamente.

Têm até semanas de 'Contato com a Vida Profissional' nas quais os alunos são mandados a ambientes adultos de trabalho.

Trabalhos de casa são muito raros. Os professores recomendam que, ao invés disso, a família vá junta ao museu, ao jardim, à piscina etc.

No fundo, o que as escolas finlandesas estão a fazer é evitar que as crianças stressem, que entrem em ansiedade, para alcançarem boas notas. E se alguém já viu isso acontecer com o próprio filho, sabe bem a importância de o evitar.

Era muito bom poder dizer que nas nossas escolas as crianças estão tranquilas, felizes e motivadas, que, para além de aprenderem, também têm tempo para 'serem crianças'. Que aprendem matemática com exemplos práticos, que estudam ciências a brincar numa horta, que, com a mesma importância, compõem música, fazem teatro, dança e muitas obras de arte.

Era muito bom poder dizer... mas quando?