Os relógios são mecanismos fascinantes. Em crianças, todos nós sentimos a curiosidade de abrir um relógio e perceber o que faria aqueles ponteiros andarem, que estranha magia acertava aquele ritmo hipnotizante ‘tic tac, tic tac...’ O meu pai, que foi relojoeiro – e talvez por isso desse tanto valor à pontualidade! – dizia que um relógio nunca andava para trás, que mesmo para acertar a hora os ponteiros só deviam andar para a frente, e nunca um simples curioso podia abrir aquela preciosa máquina!

Hoje até já vemos o interior destes mecanismos e raramente precisamos de os acertar. Mas, e o nosso ‘mecanismo’, o nosso ‘relógio’, já alguma vez pensámos que temos de o acertar?

Ou será que ele anda certinho?

Se fica até às tantas agarrado ao computador e tem muita dificuldade em se levantar, a resposta é, provavelmente, não.

Mas, se por outro lado, acorda sempre à mesma hora, sem precisar de despertador, talvez esteja no seu ritmo.

E se, até aqui, nunca tinha pensado nisso, agora tem mais um motivo para o fazer: segundo um estudo publicado na ‘Plos Biology’, uma revista especializada, o nosso relógio biológico pode ser uma ajuda no combate a doenças, como o cancro. As nossas células obedecem a um ritmo preciso que, se falhar, pode originar depressões, cansaço, sono, perda de memória, deficit de atenção, etc.

Este ‘ritmo circadiano’ move-se diariamente e sincroniza-se com o tempo solar. Tem cerca de 24 horas e 18 minutos, tal como o nosso dia, pois evoluiu de modo a sincronizar-se com o ciclo do planeta, ou seja, o principal controlador do nosso relógio interno é este ciclo: dia – noite, luz – escuridão.

A luz como reguladora do relógio biológico

A principal reguladora deste relógio central, localizado no hipotálamo, é precisamente a luz.

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Assim, se à noite quer abrir a porta ao Sr João Pestana não se pode expor à luz intensa dos ecrãs, pois o seu cérebro vai pensar que ainda é de dia. Ou seja, se queremos dormir melhor devemos ir reduzindo a luminosidade, pois à medida que a escuridão aumenta, aumenta também a produção de melatonina, e o sono chega.

Mas existem outras reguladoras, como por exemplo as refeições.

Se jantar às três horas da manhã, tanto o fígado como o estômago vão pensar ‘hora de jantar’, em vez de ‘hora de dormir’, pelo que não conseguirá adormecer tão cedo. Tal como se praticar exercício físico ao fim do dia, visto que o tal relógio interpreta essa prática como um estimulo.

Veja o que os estudiosos do assunto dizem que acontece no nosso organismo a cada período, durante e depois do sono, em função do chamado “relógio biológico”:

Das 21 às 23 horas: O corpo realiza actividades de desintoxicação, elimina químicos desnecessários e tóxicos, mediante o sistema linfático do nosso corpo. Neste período da noite devemos procurar o relaxamento, cessando todas as nossas actividades.

É também a melhor altura para tomar um banho relaxante.

Das 23 à 1 hora da manhã: O corpo processa a desintoxicação do fígado, pelo que deveríamos estar num sono profundo

Da 1 às 3 horas da manhã: Desintoxicação da vesícula biliar. Também deveríamos estar num sono profundo.

Das 3 às 5 da manhã: Processo de desintoxicação do aparelho respiratório. Durante estas horas podemos ter acessos de tosse, mas será melhor não tomar medicamentos para a evitar, já que interferem no processo de eliminação de toxinas.

Das 5 às 7 da manhã: Desintoxicação do cólon. Horas de ir à casa de banho e esvaziar o intestino.

‘Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer’ um ditado muito acertado pois, se não o fizermos, vamos interromper o processo de desintoxicação do nosso corpo. Além disso, a medula óssea produz mais sangue entre a meia noite e as 4 horas da manhã.

Das 7 às 9 horas: Absorção de nutrientes no intestino delgado. É o melhor horário para tomar o pequeno almoço. Se estivermos doentes, devemos fazê-lo antes das 6:30h. E antes das 7:30h se queremos ficar em forma.

Saltar o pequeno almoço não é um bom hábito e pode até matar neurónios, já que tantas horas sem comer baixa demasiado os níveis de açúcar no sangue, causando uma deterioração precoce do cérebro.

Das 9 às 11 horas: O melhor horário de trabalho para o baço e para o pâncreas. Os alimentos são transformados em energia (glicose) para nutrirem os músculos. São as melhores horas para trabalhar.

Das 11 à 13 horas: Horas do coração e.. de almoçar! Na Medicina Chinesa é também a altura de revitalizar o espírito, conversar e partilhar, pois o coração alimenta a mente e o espírito!

Das 13 às 15 horas: Horário do intestino delgado. O trabalho deste órgão é separar e distribuir os nutrientes digeridos. Pode ajudar fazendo uma caminhada ou uma massagem no abdómen.

Das 15 às 17 horas: Horário dos rins. Depois do seu trabalho não deve ingerir muitos líquidos. Mas é a altura ideal para fazer terapia e meditação.

Das 19 às 21 horas da tarde: Chegam as horas da sexualidade. O sexo acciona a endorfina no cérebro, acabando por promover o sono reparador. Também segundo a Medicina Chinesa, é a hora do Meridiano do Pericárdio, a que chamam a ‘circulação/sexo’. O grau de calor humano e ternura que somos capazes de expressar estão directamente sob a direcção do pericárdio.

Assim, para o nosso organismo funcionar que nem um ‘relógio’ devemos ter em atenção a sincronia entre o ‘tempo social’ e o ‘tempo biológico’.

Conhecendo então este mecanismo e a forma como as alterações no relógio biológico podem levar ao aparecimento de tumores, os cientistas podem tentar reverter o processo, voltando a ‘acertar o relógio’.

É esta a investigação da equipa de Ângela Relógio – investigadora de origem alentejana, que curiosamente parecia "pré-destinada" a este estudo! – da Universidade de Medicina de Berlim, nomeadamente no estudo do trabalho por turnos, que parece aumentar as doenças cardiovasculares e o Cancro do pulmão.

Sugere também que é importante repensar os momentos mais adequados para realizar as quimios e as radioterapias, não segundo os horários disponíveis nos hospitais, mas segundo o ritmo circadiano.