A revista científica ‘Cell’ divulgou que, pela primeira vez, se conseguiu clonar um casal de macacos, utilizando a mesma técnica que dera origem à ovelha Dolly em 1997. O feito foi conseguido por uma equipa de cientistas chineses, que deu às duas fêmeas o nome de Hua Hua e Zhong Zhong.

Como se conseguiu fazer essa clonagem?

No Instituto de Neurociências Chinesa pegou-se no núcleo de um óvulo de uma Macaca fasciularis (a parte que contem 98% da sua informação genética) e colocou-se no interior da célula de outro macaco.

Esta célula recebeu depois um estímulo eléctrico, simulando a fertilização do espermatozóide, e esta acaba por se dividir como se de um embrião natural se tratasse. E desta vez, o que contribuiu para o sucesso da experiência, foi que investigador Qiang Sun, antes de transferir o embrião para o útero da fêmea, mergulhou-o num caldo de catalisadores de crescimento que activaram mais de mil genes essenciais para o desenvolvimento da cria.

De um modo feliz, originou uma cria geneticamente igual à dona do núcleo.

Outra inovação do cientista, que contribuiu para este sucesso, foi que tanto o núcleo como o corpo da célula utilizados vinham de fetos e não de macacos adultos, como faziam os seus antecessores.

Como curiosidade, saiba que para a ovelha Dolly nascer, implantaram-se 277 embriões; para a Hua e Zhong nascerem foram implantados 71 embriões em 21 úteros.

A ideia, ética ou não, parece ser criar uma espécie de laboratório, vivo, com um grupo de macacos de igualdade genética, ‘criar’ a doença num deles e depois comparar as alterações noutro saudável. Resumindo, pretende-se encontrar os genes responsáveis por uma determinada doença e depois ‘editá-lo’.

Embora nestes últimos 20 anos várias espécies de mamíferos já tenham sido clonadas, como foi o caso de cães, gatos, ratos, porcos e até bovinos; nunca tinha sido conseguida a clonagem de uma espécie animal tão próxima à do ser humano.

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Esta conquista pode vir a trazer progressos significativos no estudo de doenças que nos afectam geneticamente, muitas vezes de forma mortal, como o Cancro, Parkinson e Alzheimer.

E, assustadoramente ou não, aponta também para que a clonagem do ser humano esteja mais próxima que nunca.

E o que é, exactamente, a clonagem humana?

Quando se fala de Clonagem Humana, a maioria de nós associa de imediato algum filme de ficção científica, onde o ‘gémeo’ é sempre alguém estranho e com um final pouco agradável... Mas a clonagem humana não é só isso.

Se pode realmente criar um ser geneticamente semelhante a outro, também pode ser simplesmente a duplicação de material biológico humano para transplantes de orgãos e tecidos lesados ou degenerados.

Mas, como em tudo na vida, e mais ainda quando se trata de assuntos mais sensíveis e de complicações imprevisíveis, existem cientistas a favor e outros contra.

Quem é favor, argumenta que esta técnica pode:

  • Reverter ataques cardíacos
  • Permitir o rejuvenescimento
  • Curar diversos cancros
  • Curar a leucemia
  • Criar e permitir transplantar orgãos como o fígado e os rins
  • Evitar a Síndrome de Down
  • Permitir que casais inférteis tenham filhos
  • Tetraplégicos poderão voltar a andar
  • Curar doenças genéticas e eliminar genes defeituosos
  • Salvar espécies em vias de extinção

E vão ainda mais longe, como se esta técnica pudesse vencer até a morte, defendendo que um casal pode recuperar o filho que perdeu...

E quem é contra?

Obviamente que temos em primeiro plano a Igreja Católica. A Santa Sé defende que o início da vida humana está no princpio do embrião, pelo que o verdadeiro humanismo não pode admitir experiências que ameaçam essa mesma vida.

Por seu lado, a Sociedade Bioética defende que se pode obter células-mãe de outras formas (como por exemplo do cordão umbilical) sem haver necessidade de desenvolver embriões que depois se vão destruir para vantagens de outros. Isso é, segundo o seu presidente José Yago, ‘um desrespeito à dignidade humana’.

Levantam-se riscos e incertezas, o receio de não poder controlar a possível mutação genética e alguma anomalia biológica...

  • Haverá perda da variabilidade genética?
  • Os clones terão problemas psicológicos?
  • Discriminação?
  • Envelhecimento precoce?

Além de toda uma alteração a nível social, a população mundial irá aumentar e os recursos naturais poderão esgotar-se mais rapidamente. Há quem acredite que os cientistas ficarão apenas pela clonagem terapêutica, mas a verdade é que o ser humano nunca conseguiu ‘limitar’ os seus sonhos...

Mas estes sonhos poderão rapidamente cair em pesadelo, se pensarmos numa sociedade em que um clone não seja olhado como um ‘individuo’, como um ‘ser’ vivo, mas apenas como uma cópia de ‘carbono’...

Se imaginarmos ‘fabricas de bebés’ feitos à escolha de cada um, perfeitos, louros e de olhos azuis...

Se no filme mais negro, começarem a usar clones para fazerem o trabalho sujo e amoral que o ‘original’ não quer ser apanhado a fazer...

Mesmo na versão mais perfeita, será justo pedirmos aquele clone que seja o filho que perdemos e que era um grande jogador de futebol? E se ele quiser ser outra coisa?

Será que alguém ‘igual a mim’ geneticamente será mesmo ‘igual a mim’?

E poderei exigir que o seja?

O clone tem apenas uma mãe? Ou um pai? Ou terá os mesmos pais que o seu ‘original’?

Quem será responsável por esta criança?

E o que pensará a criança de ser uma ‘cópia’?...

Para que não venhamos a ser adultos a brincar com bonecos, ou tal qual Frankenstein criarmos ‘monstros’, deveremos pensar muito bem a questão da clonagem, reflectir sobre que problemas podem surgir, seja no campo moral, social, ou religioso.

Mas agora a porta abriu-se mais um pouco...

Abrimos a caixinha de Pandora... E já não poderemos voltar atrás.