Hoje é #Dia da Mulher. O facto de ser necessário atribuir uma data a este género é, por si, já preocupante. Até porque todos os dias deveriam ser Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Gordo, Dia da Pessoa com Deficiência, ... Dia de Todos. Porque se assim fosse era sinal que não existia descriminação nem #preconceito. Mas há.

Quando pensamos que certas ideias preconceituosas começam a estar no tempo e espaço que merecem, assim tipo Idade da Pedra, eis que nos deparamos com elas, mesmo à nossa frente, tal qual uma chapada na cara! E acordamos para a realidade... Estão na nossa casa, nas ruas, nas escolas.

Crianças com pais modernos, educados, supostamente 'evoluídos', têm na escola atitudes do mais básico preconceito, do mais cruel racismo, do mais intolerante #machismo.

Num estudo publicado recentemente pelo JN foi divulgada uma realidade preocupante: 56% dos jovens que namoram são vitimas de violência. Ou seja, mais de metade dos jovens tinham tido, pelo menos, uma relação onde tinha existido um acto violento. Este acto dividia-se entre violência psicológica (cerca de 18%), perseguição (16%), violência através das redes sociais (12%), controlo (11%), violência sexual (7%) e física (6%).

A investigação foi realizada pela UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta e contemplou um universo de 3163 jovens, com uma média de idade de 15 anos.

Foi revelado também que no ano passado a GNR recebeu mais de 500 participações relativas a violência física entre namorados e ex-namorados. Curiosamente, esta última foi maior.

O nosso Código Penal, dirigido ao crime de violência doméstica, contempla também as relações entre namorados, que é assim considerado crime público.

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Ou seja, pode ser penalizado mesmo que a vítima não o denuncie. Mas a verdade é que, se esta não o fizer, quem o fará?

Apesar do número de queixas ter aumentado, uns tímidos 6%, continua a ser preocupante a falta de denúncia destes casos. Diz, quem realizou o estudo, que as vítimas temem as represálias dos agressores.

Outro factor preocupante é que uma em cada quatro vitimas considera 'aceitável' e 'normal' este tipo de violência, seja psicológica, física ou sexual. A pressão para terem relações sexuais é também encarada com naturalidade pela maior parte das jovens. Situações de controlo do parceiro, como serem 'proibidas' de saírem sozinhas, de usarem certo tipo de roupa, ou até de falarem com amigos, não são reconhecidas como violência por uma grande parte das jovens.

Há necessidade de lançar um alerta, seja aos pais, como aos professores e às instituições. Ninguém se deve colocar à parte destas situações. Toda a sociedade adulta é responsável pela mensagem, pela imagem e pelos exemplos que passa à geração seguinte e, atenção, tenham filhos ou filhas a mensagem tem de ser a mesma.

Alguma coisa está a falhar.

Falhamos nós, pais, que não damos muitas vezes os melhores exemplos; que toleramos que os nossos filhos tenham uma escola onde o mau comportamento não é punido; falha o sistema de ensino que sobrevaloriza a avaliação académica e desvaloriza o comportamento moral; falham os docentes que já há muito adoptaram alguma inércia relativamente à formação individual; falha a cultura de um País que é machista e preconceituosa...

Crianças vitimas de preconceitos, seja a nível sexual, de raça, ou de qualquer outro tipo, tornam-se infelizes na escola e com maus resultados. E por vezes não conseguimos aperceber-nos porque isso acontece.

A escola é o lugar perfeito para todas as crianças terem acesso a informações objectivas, democráticas e honestas. E esta informação estende-se à relação entre sexos opostos. Seria aqui o lugar privilegiado para a criança perceber que é ela quem vai definir a sociedade do amanhã. Se a luta deve começar em casa, deve também ser continuada na escola e logo no jardim de infância.

E não falo apenas numa disciplina, como Cidania. Estes são temas que podem perfeitamente ser inseridos nas disciplinas curriculares, se assim existir vontade. Existem países que já o fazem.

Lança-se algumas ideias:

Em Português, apreciarem textos onde consigam detectar a presença de preconceitos, darem a sua opinião e reflectirem sobre ela. Conhecerem mulheres influentes na cultura literária. Histórias de luta feminina, preconceito e violência. Pedir aos alunos que elaborem um texto sobre uma mulher importante nas suas vidas...

Em História comparar o estereótipo da mulher do século passado com a da actualidade. Aqui também o conhecimento das batalhas que as mulheres travaram ao longo dos tempos, para poderem votar, para poderem trabalhar, para terem os mesmos direitos que os homens, pode ajudar à consciencialização das crianças.

Nas aulas de Tecnologia, falando por exemplo das invenções femininas, tão importantes como o software de computador, o wireless, o frigorífico, os painéis solares, o colete à prova de balas, ou outras interessantes, como o jogo do Monopólio, a cerveja, a seringa, a máquina de fazer gelados...

A Filosofia dá inúmeras possibilidades de debate.

O Teatro possibilita a troca de papéis femininos e masculinos, a possibilidade de 'vestir' e encarnar outro sexo.

Educação Física deve permitir e incentivar equipas mistas, sejam de futebol ou dança. Professores que ainda insistem que os rapazes jogam à bola e as meninas vão fazer coreografias, devem ser afastados do sistema de ensino... Ok, fiquem, mas actualizem-se, por favor!

A luta tem de ser conjunta.

Iniciativas como a que a PSP teve, no Dia dos Namorados, são importantes, mas não chegam se forem isoladas. A operação 'No namoro não há guerra' ficou-se pelas escolas de Lisboa, procurando sensibilizar para a violência doméstica e para o bullying na internet.

Temos de fazer mais.

Ficam algumas dicas:

· Para os meninos, incentive a realização de tarefas como fazer a cama, lavar a louça e outros serviços domésticos;

· No caso das meninas, estimule a participação em actividades como jogar futebol ou outras tarefas ditas “masculinas”;

· Esteja atento ao comportamento dos seus filhos e não aceite atitudes machistas, preconceituosas ou racistas;

· Incentive brincadeiras colectivas, que envolvam tanto as meninas como os meninos;

· Procure conhecer a escola onde os seus filhos estudam, se está alerta, e pune devidamente, atitudes discriminatórias;

E, acima de tudo lembre-se, as crianças não seguem o que lhes dizemos, copiam o que fazemos!

Vamos pensar que um dia teremos realmente Dia da Mulher, quando a nossa filha, a nossa mãe, a nossa avó, forem tratadas com respeito e dignidade, sem sexismos de colegas, de filhos, ou mesmo de maridos.

E, mães, a maior luta está mesmo nas vossas mãos! Tenham coragem de a fazer.