Desenvolvida pelo espanhol Sergi Santos, Samantha é a "sexbot" mais famosa e cara do mercado, podendo custar cerca de sete mil dólares. O robô criado para satisfazer desejos sexuais tem agora uma nova funcionalidade, que o engenheiro anunciou no Life Science Center em Newcastle, Inglaterra: o dummy mode (do inglês, estado de inatividade). Falamos de um sistema de inteligência artificial que permite a Samantha interpretar o comportamento do utilizador e desligar-se se estiver a ser tratada com demasiada violência.

Segundo uma entrevista dada anteriormente pelo engenheiro ao Daily Mail, Samantha foi criada para que Sergi pudesse satisfazer os seus desejos sexuais, pois, segundo afirma, tem necessidade de ter relações sexuais “várias vezes ao dia” e a esposa “não está disposta a isso.” “Não consideramos que seja traição…salvou o meu casamento!”, referiu.

Curiosamente, quando questionado se a mulher também utilizava "sexbots", Sergi respondeu negativamente, dizendo que não o admitiria, devido aos ciúmes. Mas não é o único a usar este argumento da fidelidade a favor da utilização de robots sexuais; a empresa Silicon Wives (Esposas de Silicone), também defende que esta é uma excelente maneira de recuperar a intimidade perdida com um companheiro, sem traí-lo obrigatoriamente.

Os contrastes da modernidade

O século XXI, apesar de ainda jovem, já revelou contrastes esquizofrénicos aos quais nem sempre nos conseguimos habituar: as redes sociais ora servem de ignição à Primavera Árabe, ora já são antros de um voyerismo e glorificação do suicídio, como se viu com o jogo Baleia Azul; enquanto isso, do outro lado do Oceano, os EUA escolhem como líder um senhor que, segundo se soube ainda em campanha eleitoral, costuma abordar as mulheres agarrando-as pelos genitais - mas os mesmos EUA são incubadora do movimento social #metoo, denunciador da opressão e violência sexual que vitima sobretudo mulheres (mas não só) muito além dos estúdios de Hollywood.

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Por cá, a nova vedeta do marketing das telecomunicações é Sophia, a humanoide careca que já goza de estatuto de cidadania na Arábia Saudita – país onde as outras mulheres, aquelas de carne e osso, podem ser presas por não usarem vestes e vestuário tradicional.

Na temática da robótica, a previsão dos especialistas é que em 2050 já teremos a celebração de casamentos humano-robô. Segundo Joel Snell, investigador da Universidade de Kirkwood, no Iowa, tal será possibilitado pelo facto de os robôs serem programados para satisfazer as necessidades individuais. O mercado dos robôs sexuais, ou "sexbots" está em expansão e, embora não esteja acessível a todos os bolsos, os seus produtos estão cada vez mais desenvolvidos: as toscas bonecas insufláveis são substituídas por verdadeiras réplicas do corpo humano, desde os seus esqueletos metálicos, aos gestos e voz, controlados remotamente por aplicações de tablet e smartphone. É aqui que se insere Samantha.

O argumento da submissão

A ideia de usar bonecas para evitar a traição poderá ter sido uma excelente oportunidade de debate da monogamia – sobretudo da monogamia enquanto instituição, imposta ao indivíduo sem esta fazer parte, necessariamente, do seu verdadeiro modo de ser, da sua orientação sexual e romântica – absolutamente desperdiçada por homens que mais do que interessados em ter várias parceiras sexuais (o que até poderia ser legítimo), querem mulheres – ou figuras ditas femininas – irredutivelmente submissas.

Prova disso é um outro argumento defendido pela Silicon Wives: “as sex dolls são muito mais vantajosas do que as mulheres, pois são submissas, nunca dizem não, o que as torna mais submissas e leais do que as mulheres (e quem não quer isso?)” lemos no site da empresa.

Este prazer à custa da inteira submissão feminina ganhou contornos especialmente assustadores quando Sergi Santos anunciou o dummy mode. Talvez este modo até sirva para desencorajar o tratamento inapropriado da boneca – embora, muito provavelmente não o faça – e Santos pretendesse verdadeiramente uma tradução do conceito humano de consentimento para o mundo da robótica, mas a realidade é que apenas obteve um resultado: o de dar ao utilizador a opção de ativar este dummy mode, pervertendo assim o tal conceito que se pretendeu copiar, desumanizando algo que é profundamente humano e que nunca deveria ter deixado de sê-lo em exclusivo.

Em suma: não parece que o problema se coloque na perspetiva moralista de negar a utilidade da robótica – ou dos meios tecnológicos, no geral – na obtenção de prazer, mas sim refletir até que ponto é a Máquina que serve o Homem, ou se, na realidade, não vamos acabar por subjugar a nossa humanidade à inteligência artificial, e aos interesses capitalistas que a sustentam.