Bem antes do seu início, a 17 de novembro no belíssimo auditório do Altice Forum Braga (sala recente e promissora, inaugurada em setembro deste ano fruto das obras de expansão e melhoria do antigo Parque de Exposições), a quinta edição do Concurso de Bandas Filarmónicas de Braga (CBFB) já dava dores de cabeça a cada uma das 13 bandas participantes.

Intitulada ‘Da Avenida Viajam Iluminados Desejos’ e com o subtítulo ‘São João de Braga: a maior festa popular de Portugal’, a obra obrigatória desta quinta edição do CBFB ditou a desistência de algumas bandas, previamente predispostas a participar neste concurso, muito devido à sua complexidade técnica.

Sons da romaria

Composta pelo compositor bracarense Osvaldo Fernandes, esta obra vive dos ambientes, texturas, efeitos e coloridos musicais obtidos através de uma rica e tradicional orquestração filarmónica mas com uma diversidade tímbrica e rítmica da percussão (que tão tradicional é desta zona do país) utilizando mesmo instrumentos pouco usuais; os minutos em audição desta obra levam-nos a viajar até ao São João de Braga e quase ver os balões lançados na esperança da realização dos nossos desejos pessoais, ouvir as bandas a tocar em despique… toda esta obra é, sem dúvida, um delicioso vislumbre da maior romaria minhota.

Aos que abraçaram o desafio de interpretar esta obra para o próprio compositor, que foi parte integrante do júri juntamente com os maestros Ilídio Costa, Hélio Soares, Filipe Silva e Paulo Martins (maestro da banda vencedora da quarta edição), na esperança de vencerem e assegurarem a sua participação nas Festas de S. João de Braga do próximo ano, a organização do concurso, à imagem das edições anteriores, solicitou que apresentassem uma obra de aquecimento e outra de escolha livre. E foi na escolha da peça livre que muitas bandas se auto prejudicaram.

Como ilustração disto está a Banda Musical de Oliveira (Barcelos), que além de ter tido uma fraca prestação na peça obrigatória, a escolha da peça livre bem como a falta de musicalidade, as falhas ao nível da afinação e do equilíbrio sonoro da mesma, ditaram, muito possivelmente, o seu destino como penúltimo classificado (12º lugar).

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A banda poderia ter tido uma melhor prestação, talvez, se o maestro Filipe Cunha tivesse uma direção menos técnica e mais musical.

O melhor do concurso

Mas todos os caminhos têm duas pontas e, no lado mais oposto, esteve a Banda Musical de Loivos. Vinda de Chaves, distrito de Vila Real, a Banda Musical de Loivos veio mostrar um enorme talento, uma excelente qualidade sonora, uma capacidade de envolver o público fenomenal e um elevado grau de musicalidade. Oficialmente apresentada em concurso com 89 elementos, esta banda é composta na sua maioria por jovens estudantes de Música, tendo tido a faixa etária mais baixa neste concurso.

Naturalmente que as mentalidades estão preparadas para que uma ‘bandinha lá de cima’ não seja capaz de superar o desafio que é concorrer a um evento destes, pois diz a gíria pejorativa popular que em Trás-os-Montes as bandas são ‘chicas’. Mas, sob a batuta do maestro Luciano Pereira, estes jovens mostraram que os transmontanos fazem muito boa música, realizam trabalhos de elevada qualidade e são capazes de conquistar os mesmos prémios que qualquer banda minhota ou da zona do Douro.

Para mentalidades estreitas, são necessários caminhos largos. E é exatamente esse caminho que o maestro Luciano tenta trazer às mentalidades, através do seu trabalho. Embora fosse merecido um lugar nos dois primeiros, a Banda Musical de Loivos conquistou o quarto lugar; mas o caminho faz-se caminhando e, talvez, numa próxima edição voltem a surpreender pela positiva.

O prémio de melhor maestro foi, a meu ver, muito bem atribuído ao maestro da Banda de Golães, Filipe Fonseca. Certamente que o seu gesto fluído e natural, o seu controlo sobre a banda e a sua técnica precisa de direção, aliados ao seu elevado grau de musicalidade e inteligência que o permitiram dirigir todo este concerto de memória, levaram a conquistar este feito. Mas o maestro Luciano Pereira, como um maestro experiente, com uma técnica muito precisa e uma capacidade de transmitir musicalidade extraordinária, em nada lhe facilitou o caminho até à vitória. Nas pontuações finais atribuídas pelo júri do concurso, apenas algumas décimas separaram estes dois maestros.

As últimas observações vão para as Bandas de Amares, Paramos e, claro, para a banda vencedora, a de Golães. Quanto à primeira, que obteve injustamente um décimo lugar, é notória uma grande evolução. Não estiveram próximos de alcançar o pódio, é certo, mas é evidente que o trabalho do maestro António Ferreira está a surtir um grande efeito na banda e daí advém a sua enorme capacidade musical. Mas as partes solistas, nomeadamente na peça obrigatória, podem ter prejudicado a banda na sua avaliação, assim como a individualidade musical.

A Banda de Paramos, que conseguiu o excelente segundo lugar, teve uma prestação extraordinária; mas, a meu ver, era notório que um trabalho intensivo prévio foi realizado e isso levou a banda a tocar em ‘piloto automático’, não respondendo a algumas falhas na direção do seu maestro. Uma sorte que manteve a banda no topo das prestações neste concurso.

Por fim, a Banda de Golães, que além de levarem para casa o primeiro prémio deste concurso, levaram ainda o Prémio Afinaudio e, claro, o de Batuta de Prata (que distingue o melhor maestro). Deve existir uma maior transmissão da musicalidade, uma maior envolvência do público em futuras apresentações. Tocaram com uma técnica excelente, uma afinação fenomenal e um equilíbrio sonoro bastante agradável.

Os meus parabéns a todos os participantes e integrantes deste concurso, especialmente a toda a incansável organização, que fez com que tudo corresse nos moldes perfeitos, ao painel de jurados, à Banda de Golães pela conquista da vitória e ao maestro Filipe Fonseca pelo Prémio Batuta de Prata.