"Armanda Passos: 75 anos, 75 escritas" é uma nova exposição de Armanda Passos patente até 9 de Novembro e que assinala os 75 anos da artista. O título que a pintora subscreve qualifica a obra de texto e pintura agora apresentada na Reitoria da Universidade do Porto, onde é habitual acompanharmos as suas aparições públicas. Assim como, a um nível privado, costuma dar a conhecer os trabalhos mais peculiares na Casa Armanda Passos da Foz, arquitectada por Álvaro Siza.

As 75 obras podem ser adquiridas, juntamente com o catálogo que cumpre a mesma edição limitada.

Parece estranho os textos estarem escritos pelo próprio punho, com letras de pernas para o ar, ou viradas ao contrário, detrás para a frente, o que obriga o observador a parar, a certificar as palavras e a rectificar a leitura. Uma marca própria que certifica a obra de escrita, desenho e pintura, única e inesperada dentro dos contornos conhecidos. Como uma reflexão sobre o tempo, diferentes tendências e interpretações.

Génese da exposição

Armanda Passos recolhe 75 excertos de textos de amigos artistas, cientistas, críticos de arte, escritores, filósofos, historiadores, políticos, religiosos, grandes nomes da cultura portuguesa. Reserva o pensamento de uma elite, acrescentando-o ao número de anos vividos. Vozes inseparáveis da vida e da obra, discursos estruturantes que a formam como artista e consagram a arte, simples pessoas que a tocam.

Quase num gesto de Michelangelo (1475-1564), no toque de dedos da tecto da Capela Sistina, Armanda Passos homenageia quem a escreve, libertando a matéria. Dá-lhes, aos críticos amigos, a proporção dos 75 anos de tempo vivido e a recompensa de uma caligrafia e figuração muito próprias. Porque o agradecimento é sempre a sua postura.

Por outro lado, e numa atitude irreverente, Armanda Passos ilustra em simultâneo quem pensa os textos.

De forma lúdica e quase sem aperceber, coloca-se no lugar de crítica daquela outra arte gráfica presa à literatura, à espiritualidade, ao mundo de vultos como António Alçada Baptista (1927-2008), David Mourão-Ferreira (1927-1996), Eduardo Prado Coelho (1944-2007), Fernando Pernes (1936-2010), José-Augusto França (n. 1922), José Saramago (1922-2010), Lídia Jorge (n. 1946), Mário Cláudio (n. 1941), Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), Vasco Graça Moura (1942-2014), entre outros.

Os jogos criativos que a artista ousa revelam o génio, mais ainda num período da vida que sabemos crítico por estar a recuperar de uma cirurgia rigorosa.

A grafia invulgar apresentada nestas obras de pequeno formato mostra também a crise interior com vista a uma reestruturação, um renascimento. A eternidade como certa no mundo inconstante e sem valores que vivemos.

Asseguro que não há nada que Armanda Passos faça por acaso, mesmo que pareça inconsciente.

Conheço-a na qualidade de jornalista, há 15 anos (ou mais). Visitei a pintura e os críticos, os eventos e os amigos, a família e as casas, os cães e os pássaros, os jardins e os horizontes.

Armanda Passos desfruta de um mundo interior imenso e de uma imaginação sem limites que, em parte, atribui ao facto de ser aquariana. A sua sensibilidade pelos animais aumenta com o desânimo face aos actos humanos e, assim, cria um universo de fadas protectoras em tamanho grande.

A vida oferece-nos coincidências insólitas

Armanda Passos ilustrou um conto para a infância, "a menina fada dos pincéis", no meu primeiro livro publicado em 2008, que elucida algo de si, como vive e sente, fiel à policromia e ao roliço das "anjas" mágicas e às suas aves libertadoras de almas, como a própria pintora é.

Num dos primeiros encontros, acompanhou-me a filha Catarina talvez com cinco anos. Armanda Passos simpatizou com a menina de nariz no ar (hiperactiva como chamam hoje, sem cuidar que as crianças são naturalmente irrequietas).

Pesou a sua atitude curiosa, o signo Escorpião o mesmo da filha Fabíola, e também eu nascida sob o signo da pintora. Houve de imediato empatia, partilha de ideias a quatro.

"Gosta da pintura, Catarina?" Pergunta ao vê-la a observar uma imensa tela, a marcar a escadaria da casa de Fabíola, estava ainda em projecto a de Siza sobre a qual escrevi posteriormente. "Não gosto. Só pinta gordas!" Mal sabia onde me havia de meter e, logo, a pintora soltou uma gargalhada que ecoou pelo espaço de pé direito triplo: "Por isso gosto de crianças, são sinceras!"

As fêmeas avantajadas maduras de Armanda Passos, quase sempre associadas a aves, míticos grifos, são afinal "a perfeita execução a que se obriga" (Álvaro Siza, 2006), "a verdade (do) real" (Arnaldo Saraiva, 2004), "grotescas caricaturas de nós próprios" (David Mourão-Ferreira, 1991), "a totalidade do mundo" (Gisela Rosenthal, 1990), "uma nova idade de ouro" (José Saramago, 2004), "a dor mas, também, a alegria" (Laurinda Alves, 2002), "uma viagem aérea" (Lídia Jorge, 2010), "rostos, sem idade nem identidade" (Manuela Ramalho Eanes, 2004), "mulheres do começo do mundo" (Manuel Sobrinho Simões, 2011), "casa de onde se partiu e a que sempre se regressa" (Mário Cláudio, 2002), "redondas feiticeiras" (Mia Couto, 2013), "um bloco impositivo" (Vasco Graça Moura, 2001).

Para mim, esta figuração que toca o divino e o grotesco é tão somente o retrato da artista vista por dentro, cercada pelas 75 e mais escolhas livres. São chamadas de atenção da "pessoa rara" que é (António Barreto, 2015), "efervescente sereia, sedutora de pincéis" (Jorge Listopad, 1993) que eu tive a honra de descrever aos mais novos, agradecendo a ilustração, a arte e o tempo.

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