Paulo Betti apresenta nos palcos de Portugal a sua "Autobiografia Autorizada", apenas a parte da vida que remonta à infância e adolescência. "A ideia de fazer a peça veio dos amigos que gostavam de me ouvir contar histórias", confessa o actor brasileiro, em entrevista. "Vai virar livro que já estou revisando."

Em palco, aos 67 anos (e desde 1972), o actor brasileiro do interior de São Paulo conta a história do período mais remoto e complicado da vida, fazendo-nos concluir que o facto de nascer pobre não condenou o talento.

Pelo contrário, mais se esforçou para saltar o muro, melhor dizendo, para não perder o navio onde o pai o viu partir rumo ao Rio de Janeiro.

Paulo Betti trabalhou, no Rio de Janeiro, para pagar os estudos e um lugar ao sol. Conseguiu-o numa luta solitária, tal como agora a ilustra nesta ínfima parte da autobiografia, com cenário de Mana Bernardes e figurino de Leticia Ponzi.

"A poesia estava dentro de mim, estimulada pelos professores", explica Paulo Betti, à margem da exibição. "Meu plano na juventude era ser médico, mas o actor atropelou, fui premiado e decidi entrar para a profissão."

História de vida

Paulo Betti nasceu numa pequena casa na zona rural de Rafard, no interior do estado de São Paulo, tendo mudado, ainda na infância, para a cidade de Sorocaba.

A peça remete para este período difícil, ressalvando vivências tão duras quanto poéticas. Trata-se de uma lição para aqueles que acreditam que tudo cai do céu. Porque tudo é mais fácil com as novas tecnologias. Porque tudo está à mão, num iPhone. A memória encurtou e esqueceu a tradição de os mais novos aprenderem com os mais velhos, uma sensibilidade já rara. Porque o dinheiro ajuda muito, mas não é tudo.

Em Autobiografia Autorizada, o que Paulo Betti mais enaltece são os afectos da família semi-analfabeta, ou mesmo analfabeta, com escassos recursos, que tem a própria cultura e herança, vinda dos confins de Itália e do interior do Brasil. "Não sei qual ADN pesa mais". O apego e as contrariedades acabaram por ser a base do espírito crítico e criativo que o fez subir aos palcos e brilhar com graça, expressão e génio.

Na peça, não houve espaço para a vida recente, os casamentos, a descendência, e falta não faz. A mensagem que o actor quer transmitir reside nesta primeira parte da vida, na esperança e no esforço que realizam, sim, os sonhos.

"A casa é um retrato na parede, mas dói", continua. "O espaço preferido era a palhoça do meu avô, com pequeno jardim de cristas de galo na frente. A palhoça era coberta de sapê."

Tudo se recria em palco e tudo perece em nós, por entre a voz terna e os gestos fortes, as imagens projectadas que nos transportam para o mundo representado. Tão real como a presença do actor em palco.

Momentos marcantes

O cuidar da vida e da morte, com as mesinhas e as rezas das mulheres, as curas e os milagres, também se relaciona com esse tempo quase apagado no século XXI que escasseia nas aldeias portuguesas e nas famílias mais humildes que o cultivaram e hoje se preparam para abraçar a eutanásia.

Para quê levar os pais velhos e doentes para casa, como fez a irmã enfermeira do actor, contra vontade do médico, honrando a mãe e eternizando-a como uma deusa. A partilha do pouco ou quase nada, o amor que faz falta.

"A pessoa mais marcante foi minha mãe. Ela era a central. Conseguiu nos manter unidos".

A mãe que amamentou sete filhos até tarde e mantinha os seios belos em avançada idade, uma lição para as mulheres que recusam fazê-lo para não desvirtuar o peito.

Os termos linguísticos utilizados são de uma riqueza imensa. Um linguajar que soa a quase medieval com raízes no português das Descobertas e entretanto decaiu, mais em território nacional do que brasileiro. "O linguajar que uso é do interior de São Paulo, o acento caipira, próprio do falar do homem do interior".

O que Paulo Betti não esperava era encontrar um Portugal mais perto do estado actual do seu país. O Portugal grosseiro e agressivo que invade as ruas e as redes sociais com roubos, discriminação e maus modos.

Por azar, no dia após a sua actuação no Teatro Constantino Nery de Matosinhos, foi assaltado em Vila Nova de Gaia, não deixando de desabafar a desilusão: "Partiram o vidro da nossa carrinha em Gaia, ontem à tarde. Não achamos que Portugal fosse tão inseguro, pensei que só no Brasil aconteciam estas coisas".

Essa violência tão afamada no quotidiano brasileiro não existe na peça autobiográfica. Talvez por terem sido dourados os anos 50-60 e 70 do século XX, só enfrentando o Brasil graves problemas com o enfraquecimento político e económico dos anos 80.

O bem do mal

Muitos poderão pensar que, por se tratar de um monólogo autobiográfico e algo longo, terá contornos aborrecidos e não.

Do início ao fim da peça, o público de todas as idades não resiste à gargalhada geral e, mesmo falando de coisas sérias e representando momentos de tristeza, como o estado vegetativo da mãe, os problemas de ossos da avó e os períodos de internamento do pai que o traumatizaram.

Descreve-os com a piada das palavras e da mímica que só um grande actor é capaz de orquestrar. "Regressar a casa é sempre prazeiroso e doloroso".

Autobiografia Autorizada fica em Portugal até 27 de Março, sendo esta última no Auditório Ramo Grande dos Açores. Passará antes pelo Capitólio de Lisboa (29 de Fevereiro), Teatro das Figuras de Faro (6 de Março), Casa das Artes de Arcos de Valdevez (13 de Março), Teatro Baltazar Dias da Madeira (14 de Março) e Casa das Artes de Miranda do Corvo (22 de Março).

Regressará então ao Brasil, onde continuará a digressão e lançará o livro.

Não perca a nossa página no Facebook!