Não é de hoje a destruição do património histórico na Foz Velha, mas agravou nos últimos anos com a sobrevalorização imobiliária e com a avalanche de turistas que visita o Porto e vem dar à Foz do Douro. Nada a fazer. Os casos descuidados são apontados nas redes sociais, alguns chegam aos tribunais que param as obras sempre tarde demais, ou seja, depois dos edifícios demolidos.

Note-se que estamos a referir-nos a um conjunto classificado de interesse público e de interesse municipal, ainda mal estudado, que está a ser vandalizado e a desaparecer, sem medidas preventivas e vistorias eficazes. Quanto muito são preservadas as suas fachadas, eliminando os interiores que muitas vezes provam ser anteriores às últimas intervenções dos séculos XIX e XX, e retirando assim o valor histórico ao património que fica resumido a espécie de corpos sem alma.

A par da descaracterização e destruição, coabitam os pormenores e soluções de mau gosto ou descuido na escolha de materiais. Prova viva da falta de cultura dos portugueses e de vistorias menos rigorosas da CMP que passem pelo tratamento de fachadas e preservação de elementos característicos desta zona histórica já com pouco da cultura castreja e romana, mas com algo ou muito dos períodos medieval, renascentista, maneirista, barroco, neoclássico e romântico. Mesmo com a sobreposição de tempos e critérios de estilo.

É preciso inventariar, estudar e classificar os imóveis, associá-los aos nomes históricos ilustres que os viveram (arquitectos, artistas, cineastas, escritores, músicos, poetas, políticos, religiosos), exibindo inscrições nas fachadas que existiam na Foz Velha.

Foram retiradas para que o passado fosse enterrado e se pudessem deitar abaixo os edifícios, deixando-os primeiro cair em ruína (ou nem por isso), para serem depois transformados em novos espaços de alojamento e/ou restauração de apoio ao turismo massificado que chega do centro do Porto para assistir ao pôr-de-sol em beleza.

Soluções

Casos há em que, após as recentes intervenções, se mantêm as antigas fossas sem ligação à rede pública. Muitos números de polícia alterados ou não, são ignorados, disfarçados ou apagados, por forma a não ser claro o total de habitações que cabem num mesmo edifício. Os cabos eléctricos decoram as fachadas, como grinaldas negras que passam de casa em casa.

Quando estas deveriam exibir flores. Os aparelhos de ventilação surgem a cada canto de telhado, sem caixas ou velatura que os escondam. Os caixotes de lixo transbordam, especialmente junto a zonas de restaurantes, e podiam ser substituídos por contentores subterrâneos.

E porque não tornar pedonais zonas comerciais e alguns troços mais estreitos onde as viaturas batem, na pedra das casas, ao transitar: na rua do Padre Luís Cabral, entre as ruas Bela e de Santa Anastácia, onde se localizam o Pedro Lemos e mais à frente o Museu dos Presuntos, Casa Aberta, Dona Picanha, e no troço da travessa do Castelo e rua da Cerca, entre a Dona Urraca e a Casa da Foz; na rua da Senhora da Luz com a rua São Bartolomeu, onde fica o Bar Tolo, até à rua de Cadouços que torna à São Bartolomeu junto à praia; e ainda na Senhora da Luz, desde a Go Natural, no novo edifício que veio substituir o casario demolido do antigo casino, até à travessa Senhora da Luz, e entre as ruas Fonte da Luz e de Diu.

Não seria difícil repensar o trânsito e assim dinamizar-se-ia o comércio, a restauração e os espaços de alojamento local, preferencialmente abertos a esplanadas.

Classificação

Posto isto, há que dar uma vista de olhos à Portaria n.º 323/2013, publicada no Diário da República n.º 106/2013, Série II de 2013-06-03, que classifica de interesse público o conjunto da Foz Velha considerado de elevado valor patrimonial histórico. Os edifícios na rua do Passeio Alegre, entre a rua de Santa Anastácia e a capela de Nossa Senhora da Lapa, na Cantareira, estão também classificados de interesse municipal.

Ressalvamos o núcleo renascentista, levantado no século XVI pelo bispo D. Miguel da Silva, e composto pela primitiva matriz e paços abaciais amuralhados, que se expande num plano urbanístico, criando um elo comunicante.

Por um lado, desde o castelo (ou forte de São João Baptista da Foz) até ao farol da Cantareira e ao farol de Sobreiras hoje em Leça; por outro, do castelo até ao farol da Senhora da Luz, iluminando de fogo o nevoeiro e a noite e funcionando como guia de marinheiros.

O século XIX e o turismo balnear trouxeram para a Foz o cosmopolitismo vivido noutras estâncias de moda da Europa, assim como os chalets, os palacetes e o romantismo, em convívio com o dia-a-dia dos pescadores. Testemunho de vivências e factos históricos, cuja preservação e manutenção devem ser asseguradas, com base nos seguintes pontos: a obrigação de obras de conservação em cada período de oito anos; a função habitacional predominante, com actividades compatíveis que preservem o ambiente em questões de tráfego, ruído e poluição; a proibição de demolições, salvo por questões de segurança ou má qualidade da obra que desmereça a imagem do conjunto, como seja, a harmonia entre os antigos e novos edifícios (ou ampliações).

Perguntamos se algum destes pontos tem sido rigorosamente cumprido, após esta salvaguarda.

E perguntamos porque são demolidas as antigas casas características da zona, como os chalés substituídos por prédios descontextualizados e sem arquitectura. E porque perpetuam os edifícios dos anos 80 que desvirtuam igualmente a Foz Velha.

Turismo

Ora os turistas não procuram apenas a dolce vita ou o dolce fare niente, para isso têm o Algarve. Interessa-lhes o património histórico e cultural que, sem a preservação dos interiores, deixa de o ser e é visível.

Mas se uns sabem fazer bem, porque não imitam os outros?

Damos o exemplo do PortoBay Flores, instalado na quinhentista Casa dos Maias que também distingue detalhes decorativos do século XVIII preservados.

Os espaços foram reabilitados, na rua das Flores, nas proximidades da Ribeira, com destaque para os pormenores artísticos em geral, os quais permitem a reconstituição da sua história.

Seguindo o curso do Douro, antes do rio dar à Cantareira e à foz, salientamos o projecto familiar Duas Portas Townhouse que privilegia elementos originais da habitação do século XIX, peças vintage e de autor. É gerida por três irmãos e uma sobrinha (ou filha), Luísa Souto Moura, filha mais velha de Eduardo Souto Moura, também arquitecta, e de Luísa Penha que assina o projecto.

Mais à frente, na Foz Nova (ou Nevogilde), quase a chegar ao castelo do Queijo, temos o Vila Foz Hotel & SPA, um projecto de excelência assinado pelo arquitecto Miguel Cardoso que privilegia os ambientes revivalistas do palacete oitocentista, a par com o núcleo contemporâneo que aposta na arte e design.

São exemplos singulares para diferentes gostos e bolsas que não descuram a história, a tradição e a identidade local, assim como o mundo novo onde se inserem hoje com as respectivas exigências.

Outros projectos há que substituem edifícios antigos ou os desvirtuam, servindo a aparências, pois que nem a sua nova arquitectura apresenta contornos inovadores ou de mestre.

A CMP tem desempenhado um bom papel, as ruas e jardins do Porto estão belos, vivos, organizados, cuidados. Mas devia olhar mais à essência e menos ao exterior, desautorizando os projectos que desrespeitam o património histórico edificado.

Como se diz em bom português, "não dá a cara com a careta."

Não perca a nossa página no Facebook!