Na madrugada do dia 7 de julho Portugal recebeu a notícia da morte da eterna Primeira-Dama, Maria de Jesus Barroso Soares. Morte anunciada desde que uma queda em casa a atirara para um estado de coma profundo e irreversível. Morte sentida. Chorada por quem ama a liberdade.

Falar com Maria Barroso era fácil. Apesar da sua agenda tão preenchida. A amabilidade encontrava sempre um espaço.

Falar de Maria Barroso no dia da sua morte não é tarefa fácil.

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Nunca seria porque 90 anos são muitos dias. Muitas estórias. Intermináveis lutas. Mais difícil fica quando se está perante uma personalidade tão profunda. Alguém que nunca perdeu a fé na Humanidade. Mesmo quando a crença religiosa vacilou. Uma fé que recuperaria muitos anos depois. Graças a Deus. Aquele que a ajudou na tormenta. Quando a vida do filho baloiçava em busca de poiso.

Não me pretendo assumir como biógrafo de Maria Barroso, apesar da atenção que tenho dedicado à sua obra.

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Um estudo para continuar. Também fugirei dos lugares comuns. O elogio é sempre mais fácil depois da morte. Limitar-me-ei a contar dois episódios ligados a um mesmo evento. Tendo como fundo o livro Segredos do Império da Ilusitânia: a Censura na Metrópole e em Angola. Uma obra que publiquei na Almedina em 2011.

Era necessário um prefaciador. Alguém que fosse um lutador pela liberdade. Uma vítima do obscurantismo da censura.

Pedi a Maria Barroso que prefaciasse a obra.

Expliquei-lhe, na sua Fundação - a Pro Dignitate -, a temática do livro. Levei-lhe o manuscrito. Que manuseou como se de um tesouro se tratasse. Com cuidado. Gestos suaves. Acariciadores.

Saí com a alma cheia. Pela aceitação do convite. Pela mundividência recebida. As lutas da sua Fundação. O receio de que a crise colocasse em causa o projeto. Não por si. Por todos aqueles que conseguia apoiar. E ainda não tinham asas para voar sozinhos.

Semanas mais tarde, na apresentação do livro, no Anfiteatro Adriano Moreira da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, Maria Barroso deliciou a assistência ao declamar três poemas sobre a liberdade.

Malgrado o ar condicionado. Que arrefece os corpos, mas irrita as cordas vocais.

Num deles - Cantiga de Abril de Jorge de Sena - a voz questionou qual era a cor da liberdade. Depois respondeu. É verde, verde e vermelha!

Era a atriz da resistência a declamar Abril. A razão da sua vida.

Foi no mesmo lugar - a nossa Academia - que encontrei Maria Barroso pela última vez. Poucos dias antes da queda fatídica.

O ambiente era solene. A tomada de posse de um académico.

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Ficámos na fila da frente. Fisicamente separados por três ou quatro cadeiras. Não houve ocasião para uma última conversa. Culpa da timidez provinciana que a cidade não curou. Tal como a medicina não curou. A grande viagem nunca se esquece. Tinha chegado a hora.

Era tempo de a Primeira-Dama encontrar a resposta. Descobrir a cor da Liberdade no Mundo da Luz.

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