A mais recente sondagem que aponta para um empate técnico nas próximas Eleições legislativas entre o PS e a coligação do PSD e do CDS-PP fez soar o alarme das campainhas socialistas. Um som estridente, face ao marasmo de otimismo e de certezas que parecia instalado no Largo do Rato. Apesar de os últimos indícios não serem muito animadores.

Uma estória que se iniciou há alguns meses, quando António Costa mostrou ser conhecedor da obra de Nicolau Maquiavel, sobretudo da passagem em que o mestre florentino escreveu: "sem a ocasião, os seus talentos e o seu espírito ter-se-iam perdido".

Receoso que tal se viesse a passar consigo, o Presidente da Câmara de Lisboa fez surgir a ocasião.

Para tal, lançou um desafio ao então líder socialista António José Seguro.

Um repto que aconteceu depois de duas vitórias eleitorais do PS de Seguro: as eleições autárquicas de 2013 e as europeias de 2014. Vitórias que António Costa considerou insuficientes, uma vez que não se tinham assumido como esmagadoras. Eram vitórias pequenas. Por poucochinho. Faltava o golpe de asa.

Com a vitória - estrondosa - nas primárias abertas a simpatizantes destinadas à escolha do candidato socialista a Primeiro-Ministro e a consequente eleição para Secretário-Geral com 96% dos votos dos delegados presentes, Costa considerou que estavam reunidas as condições para rentabilizar os talentos próprios. Mesmo quando, nos tempos que se seguiram à tomada de posse, esses talentos se faziam ouvir através de silêncios ensurdecedores e de adiamentos sine die.

Nada que fizesse perigar o estado de graça, fruto de uma boa imagem veiculada pela comunicação social, como as sondagens se encarregavam de mostrar.

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A maioria absoluta estava ali mesmo ao alcance da mão esquerda fechada. Bastava sorrir.

Talvez por isso nenhum dos conselheiros mais próximos - já não é tão seguro que Costa tenha lido Maquiavel sobre o assunto dos lisonjeadores - lhe tivesse aconselhado uma reflexão sobre outros talentos. Aqueles de que fala a parábola bíblica presente no Evangelho de São Mateus. Um texto no qual o dinamismo e o espírito de iniciativa são premiados e o medo, que paralisa, é castigado.

Uma lacuna suscetível de provocar danos muito significativos e de difícil cicatrização. Um plano inclinado descendente, denunciado pelas sondagens que iam sendo conhecidas à medida que o relógio do tempo ia dando andamento aos ponteiros. Um trajeto que não foi interrompido quando, finalmente, a palavra e os projetos costistas tomaram o lugar que tinha pertencido ao silêncio e as referências ao cenário macroeconómico passaram a almoçar e a jantar com os portugueses.

Portugueses que não pareceram muito recetivos às promessas feitas.

Talvez porque não tivessem percebido cabalmente as propostas por causa do tecnicismo da linguagem ou, o que será mais grave e menos auspicioso para o PS, por duvidarem delas. Ou, ainda, por terem uma memória estranha e conservadoramente seletiva. Capaz de esquecer os enormes sacrifícios impostos pelo atual Governo. Incapaz de esquecer a responsabilidade socialista no estado a que o país chegou e que obrigou à chamada a contragosto da Troika.

O empate técnico, com a agravante para António Costa de a vantagem, ainda que pequena, cair para o lado da coligação governamental, mostra que, na conjuntura atual, as malhas do tecido de confiança entre o PS e o eleitorado não primam pela duração e denotam sinais de um desgaste precoce. Daí a descida da intenção de voto dos 45% iniciais para os atuais 37%. Uma queda acentuada e rápida. Bastaram 7 meses.

De momento, o resultado do próximo ato eleitoral permanece em dúvida. Por falar em dúvida. Já há eleitores, inclusivamente socialistas, a duvidarem se Costa se terá esquecido de ler a passagem de Maquiavel onde está escrito que "sem os seus talentos, a ocasião teria surgido em vão".

Uma dúvida cujo esclarecimento não pode - nem deve - tardar. O futuro não espera pelos indecisos.